Sim, e o motivo tem nome: você está ouvindo de novo sons que o cérebro havia deixado de receber há anos. A própria voz soa alta demais, o talher no prato incomoda, o papel amassando aparece do nada. É o esperado no início, e é diferente de aparelho mal programado — mas os dois exigem que você volte ao retorno.

Sobre tipos de perda auditiva e quando o implante coclear entra, veja perda auditiva.

Por que o cérebro precisa de tempo

A perda auditiva se instala devagar, e nesse período o cérebro se acostuma a um mundo com menos som agudo e menos detalhe. Quando o aparelho devolve esses sons de uma vez, eles chegam como informação nova — e informação nova, no começo, soa como ruído.

A literatura é mais matizada do que a conversa de balcão sugere. Um estudo com novos usuários não encontrou melhora do reconhecimento de fala no ruído atribuível à aclimatização em 12 semanas; ainda assim, esses usuários relataram melhora do próprio desempenho em questionário [1]. Já um estudo longitudinal com idosos mediu a velocidade de compreensão de frases no ruído e encontrou melhora média de cerca de 30% após 24 semanas, no patamar dos usuários experientes [2].

A leitura honesta dos dois: o que muda com o tempo é menos o quanto você acerta e mais o esforço e a velocidade com que entende — o que o usuário chama de "acostumar".

Por que a própria voz soa esquisita

Essa é a queixa número um, e tem explicação física. Ocupar o canal auditivo altera como o som da própria voz, conduzido pelo osso, chega ao tímpano — a voz soa alta demais, "encaixotada" ou "oca". É o efeito de oclusão, descrito como um dos principais problemas da adaptação [3].

Não é destino: adaptações mais abertas, com ventilação maior no molde, reduzem a oclusão e melhoram a percepção da própria voz, embora tenham desvantagens em microfone direcional e redução de ruído [3]. É assunto de ajuste.

O talher, o papel, a descarga

Sons que você deixara de ouvir voltam todos juntos, inclusive os que ninguém sente falta: talher no prato, saco plástico, papel amassando, o próprio passo no piso. Não é defeito — é o inventário sonoro do ambiente devolvido de uma vez. O cérebro reaprende a ignorar o que não interessa, mas leva tempo, e leva tempo com o aparelho ligado. Guardar o aparelho na gaveta nas primeiras semanas interrompe esse processo.

Uso progressivo e ambientes difíceis

Aumentar o tempo de uso ao longo dos dias torna a reexposição suportável. O esquema é definido pelo fonoaudiólogo e varia com o grau da perda, o aparelho e a rotina. Dois critérios ajudam mais que qualquer tabela: comece pelos ambientes fáceis e vá subindo; e prefira aumentar o tempo diário a fazer um dia longo seguido de três sem usar.

Restaurante cheio, festa, sala com eco: continuam difíceis mesmo com aparelho bem adaptado. Para elas, a diretriz de perda auditiva relacionada à idade recomenda orientar o paciente sobre estratégias de comunicação e dispositivos de escuta assistiva [4] — ficar de frente para quem fala, reduzir a fonte de ruído. Não é consolo: é parte reconhecida do tratamento.

O que é problema de programação e o que é expectativa

Costuma ser ajuste de programação: dor no canal; assobio persistente; a própria voz insuportavelmente alta; sons de impacto que doem; um lado muito diferente do outro. Nada disso deve ser tolerado em nome da adaptação — é motivo de retorno.

Costuma ser expectativa a ajustar: achar que vai ouvir como aos 20 anos, entender tudo num restaurante lotado, ou que o aparelho corrige a perda em vez de compensá-la. O aparelho amplifica e dá acesso ao som; não reconstrói a cóclea.

Na dúvida, leve a queixa ao retorno.

Por que abandonar nas primeiras semanas é o desfecho mais evitável

Não usar o aparelho que já se tem é problema documentado: uma revisão dos motivos de não uso entre pessoas já adaptadas apontou como questões mais importantes a percepção de que o aparelho não traz benefício suficiente e o desconforto de usá-lo [5].

Um levantamento com 332 pessoas com perda auditiva e 313 familiares mostrou que quem não usa tende a apontar fatores externos, enquanto os familiares apontam barreiras de atitude [6]. Leve um acompanhante ao retorno.

Do lado do que funciona: em ensaio randomizado com 203 usuários de primeira vez, um programa educativo curto aumentou o uso entre os que usavam pouco e melhorou o manejo do aparelho [7]. E a diretriz recomenda verificar, dentro de um ano, se os objetivos de comunicação foram alcançados e se houve melhora da qualidade de vida [4]. Adaptar aparelho não termina na entrega.

Quando procurar atendimento

Procure avaliação médica com urgência se a audição de um ouvido cair de forma súbita, em horas ou poucos dias — perda auditiva súbita unilateral é urgência otorrinolaringológica e não espera o próximo retorno.

Procure avaliação também se houver: dor de ouvido, secreção ou ferida no canal; tontura que começou com o uso; zumbido novo ou muito mais intenso; ou piora da compreensão com aparelho que antes ia bem.

Volte ao fonoaudiólogo se houver assobio persistente, desconforto físico, voz alta demais que não cede, ou se estiver usando o aparelho menos do que gostaria.

Perguntas frequentes

Quanto tempo leva para acostumar? Não há prazo único. Num estudo, a velocidade de compreensão de frases no ruído melhorou cerca de 30% ao longo de 24 semanas [2]. O que se pede é regularidade de uso e comparecimento aos retornos.

Minha voz parece a de outra pessoa. Isso passa? É o efeito de oclusão, e há ajustes de molde e ventilação que o reduzem [3]. Relate no retorno.

Preciso usar nos dois ouvidos? Depende da sua perda. A diretriz recomenda amplificação adequadamente adaptada [4]; o formato é individual.

Não entendo em restaurante. O aparelho está errado? Ambiente ruidoso é a situação mais difícil para qualquer aparelho. Leve a queixa ao retorno antes de concluir que houve erro [4].


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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Dawes P, Munro KJ, Kalluri S, Edwards B. Acclimatization to hearing aids. Ear Hear. 2014;35(2):203-12. DOI: https://doi.org/10.1097/AUD.0b013e3182a8eda4 (PMID: 24351612)

  2. Habicht J, Finke M, Neher T. Auditory Acclimatization to Bilateral Hearing Aids: Effects on Sentence-in-Noise Processing Times and Speech-Evoked Potentials. Ear Hear. 2018;39(1):161-171. DOI: https://doi.org/10.1097/AUD.0000000000000476 (PMID: 28777230)

  3. Winkler A, Latzel M, Holube I. Open Versus Closed Hearing-Aid Fittings: A Literature Review of Both Fitting Approaches. Trends Hear. 2016;20:2331216516631741. DOI: https://doi.org/10.1177/2331216516631741 (PMID: 26879562)

  4. Tsai Do BS, Bush ML, Weinreich HM, Schwartz SR, Anne S, Adunka OF, et al. Clinical Practice Guideline: Age-Related Hearing Loss. Otolaryngol Head Neck Surg. 2024;170(Suppl 2):S1-S54. DOI: https://doi.org/10.1002/ohn.750 (PMID: 38687845)

  5. McCormack A, Fortnum H. Why do people fitted with hearing aids not wear them? Int J Audiol. 2013;52(5):360-8. DOI: https://doi.org/10.3109/14992027.2013.769066 (PMID: 23473329)

  6. Franks I, Timmer BHB. Reasons for the non-use of hearing aids: perspectives of non-users, past users, and family members. Int J Audiol. 2024;63(10):794-801. DOI: https://doi.org/10.1080/14992027.2023.2270703 (PMID: 37870394)

  7. Ferguson M, Brandreth M, Brassington W, Leighton P, Wharrad H. A Randomized Controlled Trial to Evaluate the Benefits of a Multimedia Educational Program for First-Time Hearing Aid Users. Ear Hear. 2016;37(2):123-36. DOI: https://doi.org/10.1097/AUD.0000000000000237 (PMID: 26565785)


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