Se você vai acompanhar alguém a uma consulta por queixa de memória, sua parte não é decorativa: você é uma fonte de informação que o exame sozinho não obtém.

O que se pede de você é observação para relatar ao médico — não avaliar, não pontuar, não concluir. A conclusão é do médico e depende de exame, história e, quando indicados, exames complementares.

Por que a sua presença muda o diagnóstico

O diagnóstico de demência exige história de declínio cognitivo e de impacto nas atividades do dia a dia, com corroboração de alguém próximo, além do exame do estado mental feito pelo médico [1]. A corroboração está na definição do processo, não é um detalhe de cortesia.

Em um estudo que comparou o relato da própria pessoa com o de um informante ao longo do espectro da doença de Alzheimer, os escores fornecidos pelo informante discriminaram melhor os grupos clínicos, e as pessoas já com diagnóstico mostraram redução da percepção do próprio declínio em vários domínios [2].

Ou seja: quem está com o problema nem sempre percebe a extensão dele. Não por má vontade nem por vergonha — é parte do quadro.

O que observar nas semanas anteriores

Anote o que mudou em relação a como a pessoa era antes. A comparação é sempre com ela mesma, nunca com uma média.

  • Atividades do dia a dia: cozinhar, usar o celular, seguir uma receita, operar o controle remoto, tarefas que antes eram automáticas
  • Finanças: contas esquecidas, pagamentos repetidos, dificuldade com o caixa eletrônico, compras fora do padrão
  • Direção: pequenas batidas, hesitação em conversões, trajetos abandonados no meio
  • Medicações: doses puladas, doses repetidas, confusão com a caixa de comprimidos
  • Repetição: a mesma pergunta várias vezes na mesma conversa, a mesma história contada no mesmo dia
  • Orientação em lugares conhecidos: perder-se no bairro, no supermercado de sempre, no caminho de casa
  • Humor e comportamento: apatia, irritabilidade, desconfiança, mudança de hábitos sociais

Escreva quando cada coisa começou e com que frequência acontece. Um exemplo concreto vale mais que um adjetivo: "esqueceu o fogão aceso duas vezes em março" informa mais que "está esquecida".

Isto não é um teste e não tem nota. Ter itens na lista não significa demência, e não ter nenhum não descarta nada. A maior parte das pessoas que procura ajuda por queixa de memória não evolui para demência, e a investigação é individualizada [3].

A lista de medicações e a história de vida

Leve todas as caixas ou uma lista completa, incluindo o que foi comprado sem receita, fitoterápicos e suplementos. Vários medicamentos de uso comum afetam atenção e memória, e a revisão dessa lista é parte da avaliação, não burocracia.

Leve também a história de escolaridade e de trabalho: até que série estudou, se houve interrupções, que ocupações teve. Em amostra brasileira de idosos sem comprometimento cognitivo, o desempenho em testes variou conforme a pessoa tivesse zero, um a dois ou três a quatro anos de estudo [4]; há diferença mensurável até entre adultos sem escolaridade formal e adultos com poucos anos de escola [5]. Sem essa informação, o mesmo resultado pode ser lido como normal ou como alterado.

Leve também exames antigos, laudos e relatórios de outros médicos. Veja o que levar na primeira consulta.

Como conduzir a conversa sem constranger

Essa é a parte mais difícil, e não existe fórmula. Alguns pontos que ajudam:

Converse antes, não na porta do consultório. Diga que marcou uma avaliação e que vai junto, sem apresentar a consulta como uma prova a ser enfrentada.

Não corrija em público durante a consulta. Interromper para dizer "não é isso, mãe" transforma a consulta em confronto e não acrescenta informação. Deixe a pessoa responder do jeito dela.

Peça um momento reservado com o médico. É legítimo e comum. Se você tem observações que constrangeriam a pessoa, entregue por escrito ou peça esse momento logo no início.

Não fale por ela o tempo todo. O médico precisa ouvir como a própria pessoa descreve o que sente; a divergência entre os dois relatos é, em si, informação clínica [2].

O que a consulta pode encaminhar

A investigação combina história clínica, exame, avaliação funcional, exames laboratoriais e, quando indicado, neuroimagem estrutural — para identificar ou afastar causas secundárias antes de qualquer conclusão [6]. Parte dos casos segue para avaliação neuropsicológica, que descreve o perfil cognitivo e não fecha diagnóstico sozinha.

Veja o pilar Alzheimer e demências para a diferença entre esquecimento comum, comprometimento cognitivo leve e demência.

Quando procurar atendimento

Contexto antes do alerta: queixa de memória é comum e, na maioria das vezes, não corresponde a doença neurodegenerativa [3].

Procure avaliação sem esperar a consulta agendada se a mudança for rápida, em semanas, no comportamento, na linguagem ou na capacidade de fazer tarefas antes automáticas — ou se a pessoa passar a se perder em trajetos conhecidos.

Vá ao pronto-socorro diante de confusão que se instala em horas ou dias, com sonolência, febre ou queda recente com trauma na cabeça.

Acione o SAMU (192) diante de confusão de início súbito com alteração da fala, fraqueza ou dormência de um lado do corpo. Veja AVC.

Perguntas frequentes

Ela não quer que eu vá junto. E agora? Avise o serviço na marcação. Enviar suas observações por escrito é uma alternativa aceita em muitos lugares.

Posso responder por ela se travar? Espere ser chamado. Deixe a pessoa tentar; se o médico pedir, complemente. A forma como ela responde faz parte do exame.

Preciso anotar tudo em uma tabela? Não. Datas aproximadas e exemplos concretos bastam. O que importa é o que mudou e desde quando.

Ser acompanhante significa que ela vai perder autonomia? Não. A consulta serve para entender o que está acontecendo. Decisões sobre direção, finanças e medicações são discutidas caso a caso, com a pessoa presente.


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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Arvanitakis Z, Shah RC, Bennett DA. Diagnosis and Management of Dementia: Review. JAMA. 2019;322(16):1589-1599. DOI: https://doi.org/10.1001/jama.2019.4782 (PMID: 31638686)
  2. Cacciamani F, Godefroy V, Brambati SM, Migliaccio R, Epelbaum S, Montembeault M. Differential Patterns of Domain-Specific Cognitive Complaints and Awareness Across the Alzheimer's Disease Spectrum. Front Aging Neurosci. 2022;14:811739. DOI: https://doi.org/10.3389/fnagi.2022.811739 (PMID: 35813963)
  3. Jessen F, Amariglio RE, Buckley RF, van der Flier WM, Han Y, Molinuevo JL, et al. The characterisation of subjective cognitive decline. Lancet Neurol. 2020;19(3):271-278. DOI: https://doi.org/10.1016/S1474-4422(19)30368-0 (PMID: 31958406)
  4. Leite KSB, Miotto EC, Nitrini R, Yassuda MS. Boston Naming Test (BNT) original, Brazilian adapted version and short forms: normative data for illiterate and low-educated older adults. Int Psychogeriatr. 2017;29(5):825-833. DOI: https://doi.org/10.1017/S1041610216001952 (PMID: 27876103)
  5. Pereira A, Ortiz KZ. Language skills differences between adults without formal education and low formal education. Psicol Reflex Crit. 2022;35(1):4. DOI: https://doi.org/10.1186/s41155-021-00205-9 (PMID: 34982275)
  6. Schilling LP, Balthazar MLF, Radanovic M, Forlenza OV, Silagi ML, Smid J, et al. Diagnosis of Alzheimer's disease: recommendations of the Scientific Department of Cognitive Neurology and Aging of the Brazilian Academy of Neurology. Dement Neuropsychol. 2022;16(3 Suppl 1):25-39. DOI: https://doi.org/10.1590/1980-5764-DN-2022-S102PT (PMID: 36533157)

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