A manobra de Epley trata a vertigem posicional paroxística benigna, a causa mais comum de vertigem. É feita na própria consulta, dura poucos minutos e provoca de propósito uma crise de vertigem que passa em segundos. O que ela não é: um exercício de internet — a manobra correta depende de qual canal do labirinto está acometido.

Sobre as outras causas de tontura e por que "labirintite" quase nunca é labirintite, veja tontura e vertigem.

O que é o VPPB e por que a manobra funciona

Dentro do ouvido interno há estruturas com cristais de carbonato de cálcio, parte do sistema de equilíbrio. Quando alguns se deslocam para os canais semicirculares, cada mudança de posição da cabeça move o líquido do canal de forma indevida — e o cérebro lê isso como rotação.

Daí o padrão: crises curtas, desencadeadas por virar na cama, deitar, levantar ou olhar para cima, e não vertigem contínua. A manobra de reposicionamento — de que a Epley é a mais conhecida — usa uma sequência de posições da cabeça para conduzir esses cristais para fora do canal. É reposicionamento de partículas, não exercício.

O diagnóstico vem antes, e ele define qual manobra

Este é o ponto que a internet omite. A diretriz recomenda com força que o diagnóstico do VPPB de canal posterior seja feito quando o Dix-Hallpike provoca vertigem associada a nistagmo com características específicas, e que a manobra de reposicionamento seja então indicada [1]. Quando a história é compatível mas o Dix-Hallpike mostra nistagmo horizontal ou nenhum, a diretriz recomenda o teste de rolamento em decúbito, para avaliar o canal lateral [1].

Canal diferente, manobra diferente. O exame não é formalidade: é ele que define qual manobra fazer. A manobra do canal errado não trata, e pode deslocar cristais de um canal para outro.

Como é, do ponto de vista de quem passa por ela

O médico deita você na maca com a cabeça girada e pendente para fora da borda, e conduz uma sequência de mudanças de posição da cabeça e do tronco, mantendo cada uma por alguns instantes.

Numa das posições a vertigem aparece: intensa, giratória, com a sensação de que o teto está rodando — e passa em segundos. É esperado, e é o sinal de que os cristais estão se movendo. Náusea é o efeito adverso mais comum, em 16,7% a 32% dos participantes dos ensaios, sem efeitos graves [2]. Há quem não tolere as manobras por problemas na coluna cervical [2].

Funciona mesmo? E quantas repetições

A revisão Cochrane com 11 ensaios randomizados e 745 pacientes encontrou resolução completa da vertigem significativamente mais frequente com a Epley do que com manobra simulada ou controle — a proporção com resolução passou de 21% para 56% [2]. Os resultados foram comparáveis aos das manobras de Semont e de Gans e superiores ao Brandt-Daroff [2].

Ainda assim, nem todo paciente resolve na primeira sessão, e repetir a manobra é conduta usual. A diretriz recomenda reavaliar em até um mês [1].

O que fazer depois

Aqui há algo que contraria o que muita gente ouviu: a diretriz faz recomendação forte contra restrições posturais após a manobra no VPPB de canal posterior [1]. Dormir sentado, evitar deitar de um lado ou usar colar cervical não é conduta sustentada.

A diretriz também recomenda contra o uso rotineiro de supressores vestibulares, como anti-histamínicos e benzodiazepínicos [1] — mascaram o sintoma e atrapalham o exame. Recomenda-se, sim, educação sobre segurança, recorrência e retorno [1].

Recidiva: o VPPB volta

Volta com frequência, e saber disso evita o susto. A Cochrane registra recorrência em torno de 36% [2]; séries de seguimento longo encontram 31,4% [3] e 31,1% [4], esta com a idade associada ao risco.

Recorrer não significa que a manobra falhou, e sim que os cristais se deslocaram de novo. O tratamento é o mesmo, com novo diagnóstico.

Por que não tentar em casa por vídeo

Este é o ponto central, e tem duas partes.

A primeira é o diagnóstico. Nem toda vertigem posicional é VPPB. Uma série de casos com três pacientes cujo único achado inicial era vertigem e nistagmo posicionais — dois com tumor de cerebelo, um com hidrocefalia obstrutiva — registra que, em 12% a 20% dos casos, a vertigem posicional pode ser atribuída a doença do sistema nervoso central [5].

O diagnóstico só se sustenta se o nistagmo provocado tiver características compatíveis; qualquer característica incompatível levanta suspeita de causa central [5]. Quem faz a manobra em casa não examina nistagmo.

A segunda é a execução. Num ensaio randomizado com 20 voluntários saudáveis avaliados por dois otologistas, quem seguiu apenas um folheto teve desempenho significativamente pior que o grupo assistido, com diferença nas etapas intermediárias [6].

E a diretriz orienta avaliar fatores que modificam o manejo — equilíbrio prejudicado, doença neurológica, ausência de suporte em casa, risco de queda [1].

Quando procurar atendimento

A vertigem posicional é comum e quase sempre benigna. Dentro desse contexto, procure pronto-socorro se a tontura vier com:

  • Fala arrastada, boca torta, fraqueza ou dormência de um lado do corpo
  • Visão dupla, perda de visão, dificuldade para engolir
  • Dor de cabeça intensa e súbita, diferente da habitual
  • Incapacidade de ficar em pé ou de andar
  • Perda auditiva súbita de um ouvido

Procure o otorrino se: as crises se repetem ao mudar de posição; a tontura é contínua; houve queda; ou os sintomas persistem após o tratamento.

Perguntas frequentes

A manobra dói? Não. Provoca vertigem intensa e curta em uma das posições; náusea é o efeito adverso mais comum, em 16,7% a 32% dos participantes [2].

Resolve em uma sessão só? Em muitos casos, não em todos. A reavaliação em até um mês é recomendada [1].

Preciso dormir sentado depois? A diretriz faz recomendação forte contra restrições posturais após a manobra no VPPB de canal posterior [1].

Posso fazer a manobra em casa pelo vídeo que achei? Não. A manobra correta depende do canal acometido, identificado por exame [1]; parte das vertigens posicionais tem causa central [5]; e a execução por instrução escrita é menos precisa [6].


Leia também: Tontura e vertigem: VPPB, Ménière e neurite · Perda auditiva · O que levar na primeira consulta com otorrino

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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Bhattacharyya N, Gubbels SP, Schwartz SR, Edlow JA, El-Kashlan H, Fife T, et al. Clinical Practice Guideline: Benign Paroxysmal Positional Vertigo (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2017;156(3_suppl):S1-S47. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599816689667 (PMID: 28248609)

  2. Hilton MP, Pinder DK. The Epley (canalith repositioning) manoeuvre for benign paroxysmal positional vertigo. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(12):CD003162. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD003162.pub3 (PMID: 25485940)

  3. Ding YL, Zou SZ, Wang YQ, Li JR. Observação de eficácia a longo prazo da manobra de reposicionamento no VPPB. Lin Chuang Er Bi Yan Hou Tou Jing Wai Ke Za Zhi. 2019;33(8):761-764. DOI: https://doi.org/10.13201/j.issn.1001-1781.2019.08.019 (PMID: 31446735) [Artigo em chinês]

  4. Dai Q, Chen Q, Yin L, Zheng H, Liu SX, Duan M. The long-term follow-up of 61 horizontal canal BPPV after Gufoni and Barbecue maneuver: a prospective study. Acta Otolaryngol. 2020;140(6):463-466. DOI: https://doi.org/10.1080/00016489.2020.1725114 (PMID: 32049574)

  5. Power L, Murray K, Bullus K, Drummond KJ, Trost N, Szmulewicz DJ. Central Conditions Mimicking Benign Paroxysmal Positional Vertigo: A Case Series. J Neurol Phys Ther. 2019;43(3):186-191. DOI: https://doi.org/10.1097/NPT.0000000000000276 (PMID: 31136448)

  6. Tabanfar R, Chan HHL, Lin V, Le T, Irish JC. Development and face validation of a Virtual Reality Epley Maneuver System (VREMS) for home Epley treatment of benign paroxysmal positional vertigo: A randomized, controlled trial. Am J Otolaryngol. 2018;39(2):184-191. DOI: https://doi.org/10.1016/j.amjoto.2017.11.006 (PMID: 29169952)


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