Comparecer no horário combinado, com o cabelo limpo e seco, sem produto, levando roupa de dormir e a lista das suas medicações. E não tentar "melhorar" o exame: dormir pouco de propósito, tomar álcool para relaxar ou pular um remédio de uso contínuo distorce o registro.
O que o exame registra — e por que ele não pode ser substituído
A polissonografia registra, ao longo de uma noite, a atividade cerebral, os movimentos dos olhos, o tônus muscular, o fluxo de ar, o esforço respiratório, a oxigenação e a posição do corpo. É o exame de referência para o diagnóstico de apneia obstrutiva do sono no adulto com suspeita clínica [1].
Por isso ele não é substituível por questionário: a diretriz recomenda de forma forte que ferramentas clínicas, questionários e algoritmos não sejam usados para diagnosticar apneia na ausência de polissonografia ou de teste domiciliar adequado [1]. O que você responde na consulta define a suspeita; o que o exame registra define o diagnóstico.
Como cada exame de otorrino funciona está em exames de otorrino; o que se faz com o resultado, em apneia do sono e ronco.
O que levar
Roupa de dormir de duas peças e sem capuz. Itens de higiene. A lista das suas medicações, com nome e horário. Polissonografia anterior, se houver. Travesseiro próprio, se você não dorme sem o seu — confirme ao agendar. Aparelho intraoral, prótese ou dispositivo de pressão positiva já prescrito.
Cafeína e álcool
Cafeína no dia do exame é o ponto mais subestimado do preparo.
Num ensaio cruzado randomizado com voluntários saudáveis, uma dose maior de cafeína consumida em qualquer momento das 12 horas anteriores ao horário de dormir atrasou o início do sono e alterou a arquitetura do sono; dentro de 8 horas, aumentou a fragmentação; 4 horas antes, piorou a percepção de qualidade do sono [2]. Uma dose menor não teve o mesmo efeito.
O mesmo estudo registrou descompasso entre a medida objetiva e a percepção: as pessoas têm dificuldade de perceber o quanto a cafeína afetou o próprio sono [2]. Ou seja, "café não me faz nada" não é dado confiável na véspera de um exame que mede exatamente isso.
Álcool não apenas atrapalha o sono: muda o resultado. Metanálise de 14 estudos randomizados mostrou aumento do índice de apneia-hipopneia e queda da saturação média de oxigênio após ingestão de álcool, com efeito maior em roncadores e em quem já tem apneia [3]. Uma taça na véspera pode transformar um exame representativo num exame que superestima a gravidade.
Orientação prática: sem álcool no dia do exame, cafeína limitada à manhã — ou conforme o serviço orientar.
Cochilo à tarde e privação de sono
Não durma à tarde. E não force uma noite mal dormida na véspera achando que assim vai "dormir melhor" no laboratório. Sono obtido por privação não representa o seu sono habitual, e é o habitual que precisa ser medido.
Medicações de uso contínuo
Não suspenda nada por conta própria. Isso vale especialmente para medicações psiquiátricas, neurológicas e cardiológicas: suspender pode ser mais perigoso do que qualquer interferência no exame, e a decisão é do médico que prescreveu.
Leve a lista completa, com nome, horário e há quanto tempo usa, e pergunte antes — na consulta em que o exame foi pedido, ou ao serviço no agendamento. Se você toma indutor do sono habitualmente, informe: muitos serviços preferem que você mantenha o uso habitual a que faça uma noite atípica.
Cabelo, pele e produtos
Os sensores são colados no couro cabeludo, no rosto, no tórax e nas pernas com pasta condutora e fita, e não perfuram a pele. Para que grudem, o exame pede cabelo lavado e seco no mesmo dia, sem creme, óleo, gel, spray ou leave-in; rosto sem maquiagem e sem hidratante; e pele sem creme no tórax e nas pernas. Unhas sem esmalte escuro em pelo menos um dedo, para o oxímetro.
Como é dormir com os sensores
Estranho na primeira meia hora, tolerável depois. Você vira de lado: os fios formam um feixe único que acompanha o movimento. Para ir ao banheiro, o técnico desconecta e reconecta.
Você dorme sozinho no quarto, monitorado por vídeo e áudio, com o técnico numa sala ao lado. É um ambiente clínico, não um hotel.
"Acho que dormi mal, o exame vai prestar?"
Quase todo mundo dorme pior no laboratório do que em casa. O fenômeno foi documentado em estudo que comparou duas noites de registro em pacientes com insônia e em bons dormidores: o efeito da primeira noite apareceu na maioria das variáveis, e nos dois grupos [4]. É esperado, não é falha sua, e quem interpreta o exame sabe disso.
Duas coisas relativizam a sensação. A percepção do próprio sono é imprecisa — o mesmo estudo mostrou divergência entre o relatado e o registrado [4]. E existe conduta prevista para exame inconclusivo: se a polissonografia inicial for negativa e a suspeita clínica se mantiver, a diretriz sugere considerar um segundo exame [1]. Você não fica sem resposta.
Quando procurar atendimento
Não espere a data do exame se aparecer:
- Sonolência ao volante ou episódios de cochilo dirigindo — suspenda a direção e procure avaliação
- Pausas na respiração presenciadas com despertar em sufoco, sobretudo com dor no peito, palpitação ou pressão descontrolada
- Sonolência diurna que piorou rapidamente em semanas
- Na criança: ronco todas as noites com pausas, respiração pela boca ou sono muito agitado — ver otorrinopediatria
Perguntas frequentes
Preciso ficar em jejum? Não. Jante normalmente, evitando refeição pesada e muito próxima da hora de dormir.
E se eu não conseguir dormir nada? Avise o técnico. Uma quantidade menor de sono do que a habitual costuma ser suficiente para registro, e a decisão sobre repetir é de quem interpreta o exame.
Posso levar acompanhante? Depende do serviço, e em geral sim para crianças e para quem precisa de auxílio. Confirme no agendamento.
Quanto tempo demora o laudo? O exame precisa ser estagiado e analisado, então não sai na manhã seguinte. O prazo varia conforme o serviço.
Leia também: Exames de otorrino · Apneia do sono e ronco · Audiometria: como é e quando sai o resultado
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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
Kapur VK, Auckley DH, Chowdhuri S, Kuhlmann DC, Mehra R, Ramar K, et al. Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. J Clin Sleep Med. 2017;13(3):479-504. DOI: https://doi.org/10.5664/jcsm.6506 (PMID: 28162150)
Gardiner CL, Weakley J, Burke LM, Fernandez F, Johnston RD, Leota J, et al. Dose and timing effects of caffeine on subsequent sleep: a randomized clinical crossover trial. Sleep. 2025;48(4):zsae230. DOI: https://doi.org/10.1093/sleep/zsae230 (PMID: 39377163)
Kolla BP, Foroughi M, Saeidifard F, Chakravorty S, Wang Z, Mansukhani MP. The impact of alcohol on breathing parameters during sleep: A systematic review and meta-analysis. Sleep Med Rev. 2018;42:59-67. DOI: https://doi.org/10.1016/j.smrv.2018.05.007 (PMID: 30017492)
Hirscher V, Unbehaun T, Feige B, Nissen C, Riemann D, Spiegelhalder K. Patients with primary insomnia in the sleep laboratory: do they present with typical nights of sleep? J Sleep Res. 2015;24(4):383-9. DOI: https://doi.org/10.1111/jsr.12280 (PMID: 25659408)
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