Funciona para um grupo bem definido de pessoas, e a diferença está quase toda em como o paciente foi selecionado. Com bloqueio diagnóstico rigoroso, os resultados publicados são substancialmente melhores do que sem ele.

O que a radiofrequência é está em bloqueio, infiltração e radiofrequência na coluna, e a fonte de dor que ela trata, em dor sacroilíaca e facetária. Aqui o assunto é um só: para quem isso funciona.

O problema: nenhum exame diz que a dor vem da faceta

Não existe achado de ressonância, de tomografia ou de exame físico que confirme, sozinho, que a dor de uma pessoa nasce nas articulações facetárias. Artrose facetária aparece em muita gente sem dor.

Por isso o teste diagnóstico é funcional: bloqueia-se o pequeno nervo que leva a sensibilidade daquela articulação — o ramo medial — e observa-se o que acontece com a dor.

Por que um bloqueio só não basta

Bloqueios diagnósticos únicos têm taxa alta de resposta falso-positiva. Uma revisão sistemática descreve, na coluna lombar, prevalência de dor facetária entre 16% e 41% quando se exige alívio de pelo menos 75% com bloqueios controlados, e taxas de falso-positivo entre 25% e 44% [1]. Com exigência mais dura — alívio completo com bloqueios controlados por placebo — a prevalência de dor facetária "pura" cai para cerca de 15% [2].

Ou seja: parte importante de quem melhora com um bloqueio único não tem dor facetária. Se essa pessoa segue para a radiofrequência, o procedimento tende a não funcionar — e o problema não foi o procedimento.

O que a comparação entre estudos mostra

Três ensaios randomizados pragmáticos holandeses, com 681 participantes selecionados por um bloqueio diagnóstico positivo, compararam radiofrequência somada a um programa de exercícios contra o programa sozinho. A diferença de intensidade de dor em três meses foi pequena e não atingiu relevância clínica; os autores concluíram que os achados não apoiam o uso da radiofrequência nesse cenário [3].

Já uma coorte selecionada por dois bloqueios comparativos com alívio de pelo menos 80% relatou melhora sustentada bem mais frequente: cerca de dois terços com redução de metade ou mais da dor nos seguimentos intermediários, e cerca de 44% acima de dois anos [4].

Os desenhos são diferentes e não se comparam diretamente — um é ensaio randomizado, o outro é coorte sem controle. Mas a leitura clínica é consistente: a seleção rigorosa separa os dois mundos.

Quem tende a responder

O perfil que se aproxima do candidato:

  • dor lombar axial, que não desce pela perna abaixo do joelho;
  • dor que piora em pé por muito tempo, ao estender a coluna para trás e ao girar o tronco;
  • sem compressão nervosa que explique o quadro;
  • tratamento conservador organizado já tentado, com prazo e acompanhamento;
  • alívio consistente e repetido com bloqueio diagnóstico do ramo medial.

Quem tende a não responder

  • quem tem dor irradiada para a perna por compressão de raiz — esse quadro tem outro caminho;
  • quem tem instabilidade ou deformidade que explique a dor;
  • quem respondeu de forma parcial ou duvidosa ao bloqueio;
  • quem tem dor difusa, em vários locais do corpo — a dor lombar persistente tem determinantes que vão além da estrutura [5], e nenhum procedimento dirigido a uma articulação resolve isso.

Como é o procedimento

É percutâneo, com o paciente deitado de bruços, com anestesia local e sedação conforme a avaliação. As agulhas são posicionadas com auxílio de imagem sobre o trajeto dos ramos mediais. Antes da lesão térmica, faz-se estimulação elétrica para confirmar a posição e afastar proximidade de raiz nervosa. Tratam-se os dois ramos que inervam cada articulação — por isso o número de pontos é maior que o de articulações.

Quanto dura, e pode repetir

O nervo tratado regenera. Isso não é falha do procedimento: é a biologia dele. Quando a dor volta com o mesmo padrão depois de um período de alívio consistente, repetir é conduta razoável, e as séries publicadas descrevem uma minoria voltando para novo procedimento no seguimento [6].

O que não é razoável é repetir um procedimento que não funcionou sem rever o diagnóstico. Se não houve alívio, a hipótese de que a dor vem da faceta precisa ser reexaminada.

Expectativa honesta: é um recurso de alívio, não de cura, e não substitui o programa de exercício — nos estudos, ela foi somada a ele, não colocada no lugar dele [3].

Complicações e o que esperar nos primeiros dias

O procedimento é considerado de baixo risco, e séries publicadas relatam ausência de complicações graves em suas casuísticas [6] — inclusive quando realizado em pacientes com material de fixação metálica na coluna, desde que com técnica de imagem adequada [7].

O que acontece com frequência é dor nas punções e piora temporária da dor habitual nos primeiros dias — a neurite pós-procedimento. Também podem ocorrer dormência na pele das costas e sensação de fraqueza local, em geral transitórias. Riscos incomuns: sangramento, infecção e lesão de estrutura nervosa vizinha.

Quando procurar atendimento

Procure pronto-socorro imediatamente após o procedimento diante de febre com dor nas costas em piora, perda de força nas pernas, dormência no períneo ou perda de controle da urina ou das fezes.

Procure sua equipe em dias se a dor não ceder no prazo orientado, ou se houver vermelhidão e secreção nos pontos de punção.

Perguntas frequentes

A radiofrequência queima o nervo da coluna? Ela atua sobre um pequeno nervo sensitivo da articulação facetária — não sobre a medula nem sobre o nervo que dá força à perna.

Por que preciso fazer bloqueio antes, se já vou fazer a radiofrequência? Porque o bloqueio é o teste que diz se a dor vem dali. Sem ele, a chance de tratar o alvo errado é alta [1,2].

Se funcionar, resolve para sempre? Não. O nervo regenera e a dor pode retornar. O procedimento pode ser repetido quando o padrão de resposta justifica [6].

Posso fazer em vez de operar? São coisas diferentes: a radiofrequência trata dor facetária, não compressão de nervo, instabilidade nem deformidade.


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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Boswell MV, Manchikanti L, Kaye AD, Bakshi S, Gharibo CG, Gupta S, et al. A best-evidence systematic appraisal of the diagnostic accuracy and utility of facet (zygapophysial) joint injections in chronic spinal pain. Pain Physician. 2015;18(4):E497-533. (PMID: 26218947)
  2. MacVicar J, MacVicar AM, Bogduk N. The prevalence of "pure" lumbar zygapophysial joint pain in patients with chronic low back pain. Pain Med. 2021;22(1):41-8. DOI: https://doi.org/10.1093/pm/pnaa383 (PMID: 33543264)
  3. Juch JNS, Maas ET, Ostelo RWJG, Groeneweg JG, Kallewaard JW, Koes BW, et al. Effect of radiofrequency denervation on pain intensity among patients with chronic low back pain: the Mint randomized clinical trials. JAMA. 2017;318(1):68-81. DOI: https://doi.org/10.1001/jama.2017.7918 (PMID: 28672319)
  4. Conger A, Burnham T, Salazar F, Tate Q, Golish M, Petersen R, et al. The effectiveness of radiofrequency ablation of medial branch nerves for chronic lumbar facet joint syndrome in patients selected by guideline-concordant dual comparative medial branch blocks. Pain Med. 2020;21(5):902-9. DOI: https://doi.org/10.1093/pm/pnz248 (PMID: 31609391)
  5. Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A, Louw Q, Ferreira ML, Genevay S, et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018;391(10137):2356-67. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)30480-X (PMID: 29573870)
  6. Le VT, Do PT, Nguyen AM, Nguyen Dao LT. Thermal radiofrequency ablation combined with corticosteroid injection in management of lumbar facet joint pain: a single-center study in Vietnam. World Neurosurg. 2022;166:237-43.e1. DOI: https://doi.org/10.1016/j.wneu.2022.07.122 (PMID: 35953043)
  7. Ellwood S, Shupper P, Kaufman A. A retrospective review of spinal radiofrequency neurotomy procedures in patients with metallic posterior spinal instrumentation — is it safe? Pain Physician. 2018;21(5):E477-82. (PMID: 30282395)

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