A adenoide é um tecido de defesa normal no fundo do nariz, presente em toda criança. Ela cresce nos primeiros anos e depois regride sozinha. A cirurgia não é indicada pelo tamanho visto num exame: é indicada pelo que ela está causando.
O que é a adenoide e por que ela diminui com a idade
A adenoide fica no fundo da nasofaringe, atrás do nariz e acima do céu da boca. É tecido linfoide, da mesma família das amígdalas, e participa da defesa da via aérea nos primeiros anos de vida.
Um estudo com ressonância magnética em 270 pessoas de 3 meses a 34 anos mapeou esse crescimento: a profundidade da adenoide atinge o pico por volta dos 4 anos e a altura e a espessura por volta dos 8 anos, com involução progressiva depois disso [1].
Uma adenoide grande aos 5 anos é, em boa parte dos casos, achado esperado para a idade. O problema não é ela existir; é ela obstruir.
Respiração bucal e o que ela traz junto
Quando a adenoide obstrui a passagem de ar, a criança passa a respirar pela boca. Isso costuma vir acompanhado de sono agitado, boca aberta durante o dia, voz anasalada e queixa escolar.
A obstrução nasal sustentada durante o crescimento craniofacial é problema clínico relevante, não questão estética [2]. Por isso o quadro merece avaliação, e não observação por tempo indefinido.
Vale a ressalva: nem toda respiração bucal é adenoide. Rinite alérgica não controlada e desvio de septo produzem o mesmo sintoma, e a rinite não tratada mantém o nariz obstruído mesmo depois de qualquer cirurgia. Isso está detalhado na página sobre rinite alérgica.
Otite média com efusão e apneia infantil
A adenoide se relaciona com o ouvido pela tuba auditiva. Quando há líquido persistente no ouvido médio — a otite média com efusão —, a audição cai e a fala pode ser afetada.
A diretriz americana de otite média com efusão orienta observação por três meses a partir do início ou do diagnóstico na criança sem fator de risco, com teste de audição se o líquido persistir por três meses ou mais [3].
Na apneia obstrutiva infantil o quadro é outro: ronco quase toda noite, sono entrecortado, esforço para respirar, às vezes pausas presenciadas. Ronco habitual é definido nos estudos como três ou mais noites por semana, e sua frequência cai conforme a criança cresce [4].
Os critérios reais — e o que não é critério
Não é critério: adenoide grande em raio-X, isoladamente. O tamanho medido em radiografia lateral tem correlação apenas moderada com a medida obtida por endoscopia; a nasofibroscopia flexível é mais fiel e não expõe a criança à radiação [5]. Um número no laudo, sem sintoma correspondente, não indica cirurgia.
São critérios que sustentam a indicação:
- Obstrução nasal significativa ou adenoidite crônica — na diretriz de otite média com efusão, é exatamente essa a "indicação distinta" que justifica adenoidectomia em criança menor de 4 anos operada por líquido no ouvido; sem ela, a orientação é tubo de ventilação isolado [3].
- A partir dos 4 anos, na cirurgia por otite média com efusão, a diretriz admite tubo, adenoidectomia ou os dois [3]. A diretriz de tubos de ventilação acrescenta que a adenoidectomia pode ser feita como complemento em criança com sintomas diretamente ligados à adenoide, ou a partir dos 4 anos, para reduzir a chance de nova cirurgia de tubo [6].
- Apneia obstrutiva documentada em polissonografia, com hipertrofia de amígdalas e adenoide [7].
Sobre o exame de sono: a diretriz recomenda polissonografia antes da cirurgia em criança menor de 2 anos, ou com obesidade, síndrome de Down, alteração craniofacial, doença neuromuscular, anemia falciforme ou mucopolissacaridose.
E defende o exame quando a indicação é incerta, ou quando o exame físico não bate com a gravidade relatada pela família [7].
O que a cirurgia melhora — e o que não garante
O ensaio clínico CHAT, com 464 crianças de 5 a 9 anos com apneia obstrutiva, comparou cirurgia precoce com conduta expectante. A cirurgia não melhorou de forma significativa atenção e função executiva nos testes neuropsicológicos.
Melhorou comportamento, qualidade de vida, sintomas e os achados do exame de sono: normalização da polissonografia em 79% do grupo operado contra 46% do grupo em observação [8].
Esses são resultados de um grupo estudado, não uma previsão para uma criança específica. Vale reter os dois lados: houve ganho real e mensurável, e houve um desfecho que não se confirmou.
A diretriz também orienta que se explique à família que o distúrbio respiratório do sono pode persistir ou voltar depois da cirurgia e exigir seguimento [7]. Isso não é ressalva burocrática: é a informação que evita frustração meses depois.
Quando procurar atendimento
- Criança que ronca em quase todas as noites: merece avaliação. Não é urgência, é consulta.
- Pausas de respiração presenciadas durante o sono, ou esforço visível para respirar: avaliação prioritária.
- Suspeita de que a criança está ouvindo menos, ou atraso de fala: peça avaliação com teste de audição.
- Boca aberta o dia inteiro, sono ruim e queda de rendimento escolar: leve o conjunto à consulta, não cada item isolado.
Perguntas frequentes
A adenoide volta a crescer depois de operada? Pode haver rebrote, e a criança segue em acompanhamento. A tendência natural do tecido, com a idade, é involuir [1].
Se ela regride sozinha, por que operar? Porque o intervalo até a regressão pode conter anos de sono ruim, líquido no ouvido e obstrução. A decisão pesa o que está acontecendo agora, não só o que acontecerá depois.
Raio-X é suficiente para decidir? Não. A radiografia dá uma estimativa de tamanho, com correlação moderada em relação à endoscopia [5]. Tamanho não é indicação; sintoma é.
Tirar a adenoide baixa a imunidade da criança? As diretrizes de indicação não trazem imunodeficiência como consequência esperada da cirurgia [3,7].
Leia também: Apneia do sono e ronco e Amigdalite de repetição e amigdalectomia
Agende uma avaliação.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
Perry JL, Haenssler AE, Kotlarek KJ, Fang X, Middleton S, Mason R, et al. A Midsagittal-View Magnetic Resonance Imaging Study of the Growth and Involution of the Adenoid Mass and Related Changes in Selected Velopharyngeal Structures. J Speech Lang Hear Res. 2022;65(4):1282-1293. DOI: https://doi.org/10.1044/2021_JSLHR-21-00514 (PMID: 35239427)
Barbosa DF, Bana LF, Michel MCB, Meira E Cruz M, Zancanella E, Machado Júnior AJ. Rapid maxillary expansion in pediatric patients with obstructive sleep apnea: an umbrella review. Braz J Otorhinolaryngol. 2023;89(3):494-502. DOI: https://doi.org/10.1016/j.bjorl.2023.02.004 (PMID: 36894478)
Rosenfeld RM, Shin JJ, Schwartz SR, Coggins R, Gagnon L, Hackell JM, et al. Clinical Practice Guideline: Otitis Media with Effusion (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2016;154(1 Suppl):S1-S41. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599815623467 (PMID: 26832942)
Isaiah A, Uddin S, Ernst T, Cloak C, Li D, Chang L. Cognitive and Behavioral Outcomes of Snoring Among Adolescents. JAMA Netw Open. 2024;7(11):e2444057. DOI: https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2024.44057 (PMID: 39514229)
Pisutsiri N, Vathanophas V, Boonyabut P, Tritrakarn S, Vitayaudom N, Tanphaichitr A, et al. Adenoid measurement accuracy: A comparison of lateral skull film, flexible endoscopy, and intraoperative rigid endoscopy (gold standard). Auris Nasus Larynx. 2022;49(2):222-228. DOI: https://doi.org/10.1016/j.anl.2021.07.005 (PMID: 34334217)
Rosenfeld RM, Tunkel DE, Schwartz SR, Anne S, Bishop CE, Chelius DC, et al. Executive Summary of Clinical Practice Guideline on Tympanostomy Tubes in Children (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2022;166(2):189-206. DOI: https://doi.org/10.1177/01945998211065661 (PMID: 35138976)
Mitchell RB, Archer SM, Ishman SL, Rosenfeld RM, Coles S, Finestone SA, et al. Clinical Practice Guideline: Tonsillectomy in Children (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2019;160(1_suppl):S1-S42. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599818801757 (PMID: 30798778)
Marcus CL, Moore RH, Rosen CL, Giordani B, Garetz SL, Taylor HG, et al. A randomized trial of adenotonsillectomy for childhood sleep apnea. N Engl J Med. 2013;368(25):2366-2376. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa1215881 (PMID: 23692173)
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica.
Precisa de uma avaliação?
A recepção informa agenda, convênios e atendimento particular.
Agendar consulta