Astrocitoma é um tumor que se origina dos astrócitos, células de sustentação do sistema nervoso. O que determina a conduta não é a palavra "astrocitoma" sozinha: é o grau, entre 2 e 4, somado aos marcadores moleculares que hoje fazem parte do diagnóstico.
Se o seu laudo traz siglas como IDH ou CDKN2A, elas não são detalhe do laboratório: mudam o nome do tumor, o grau e o seguimento.
O que os marcadores moleculares mudaram
A 5ª edição da Classificação de Tumores do Sistema Nervoso Central da OMS, publicada em 2021, incorporou os critérios moleculares à própria definição dos tumores e reorganizou nomenclatura e graduação [1].
Para os gliomas do adulto, o eixo passou a ser o gene IDH:
- Glioma difuso do adulto com mutação de IDH e sem codeleção 1p/19q é classificado como astrocitoma IDH-mutante, graduado de 2 a 4.
- Glioma difuso do adulto com mutação de IDH e codeleção de 1p/19q é oligodendroglioma [3].
- Glioma difuso do adulto sem mutação de IDH, com os critérios correspondentes, é glioblastoma [1, 4].
É por isso que laudos antigos e recentes usam nomes diferentes para situações parecidas. Um tumor chamado "glioblastoma IDH-mutante" antes de 2021 corresponde, hoje, a astrocitoma IDH-mutante grau 4. Não é erro de laudo: é mudança de classificação.
A diferença entre os graus
O grau descreve o comportamento esperado do tumor, e na classificação vigente ele é atribuído dentro do tipo: um astrocitoma IDH-mutante grau 3 não é a mesma coisa que outro tumor grau 3 [1].
- Grau 2. Crescimento mais lento. Frequentemente diagnosticado em adultos jovens, muitas vezes após uma primeira crise convulsiva.
- Grau 3. Comportamento intermediário, com maior atividade proliferativa.
- Grau 4. Comportamento mais desfavorável, com critérios histológicos ou moleculares próprios.
O grau não sai da imagem: sai da análise do tecido, combinada aos testes moleculares.
Por que o laudo cita tantos marcadores
Porque cada um responde a uma pergunta diferente — tipo, grau ou tratamento.
Um documento de consenso internacional publicado em 2026 revisou os marcadores que ajudam a separar grau 2 de graus 3 e 4 em astrocitomas IDH-mutantes: amplificação de PDGFRA associou-se a comportamento compatível com grau 4; alterações de PIK3, amplificação de EGFR e de MYCN e alterações da via do RB, a risco intermediário, compatível com grau 3 [5].
No ensaio randomizado CATNON, com 751 participantes e 432 astrocitomas IDH-mutantes analisados, foram fatores prognósticos independentes a idade, o tratamento recebido, os classificadores epigenéticos, a amplificação de PDGFRA, a deleção homozigótica de CDKN2A/B, mutações de PI3K e a carga total de alterações de número de cópias [6].
Nem todo marcador serve para escolher tratamento. A diretriz europeia de testagem molecular observa que, entre os alvos revisados para terapia dirigida em gliomas do adulto, apenas a testagem de BRAF V600E tinha benefício clínico comprovado [7].
Condutas por grau
A indicação sai do grau, da localização, da idade, do estado clínico e do perfil molecular; as diretrizes europeias para gliomas difusos do adulto definem o papel de cada modalidade [2].
Cirurgia. Primeiro passo na maioria dos casos: obter tecido para o diagnóstico integrado e remover o máximo possível sem produzir déficit novo. Quando a ressecção segura não é possível, a biópsia guiada por imagem cumpre o papel diagnóstico.
Grau 2. Nem sempre há tratamento imediato após a cirurgia: em parte dos casos a conduta é seguimento por imagem; em outros, radioterapia e quimioterapia entram conforme fatores de risco. Em ensaio randomizado com 331 participantes com glioma grau 2 IDH-mutante residual ou recidivado, sem tratamento além da cirurgia, um inibidor oral da enzima IDH mutante prolongou a sobrevida livre de progressão em relação ao placebo (mediana de 27,7 contra 11,1 meses), com eventos adversos de grau 3 ou maior em 22,8% e 13,5% [8]. São dados de população, de um ensaio com critérios de inclusão próprios.
Graus 3 e 4. A radioterapia costuma ser indicada, e a quimioterapia entra conforme o perfil. No CATNON, o tratamento com quimioterápico alquilante concomitante e/ou adjuvante à radioterapia foi fator prognóstico independente favorável nos astrocitomas IDH-mutantes [6].
Disponibilidade e indicação de medicamentos variam por país e por cobertura. O que se aplica ao seu caso é pergunta de consulta, não de texto.
O seguimento por imagem
Astrocitoma é acompanhado por ressonâncias seriadas por anos, inclusive quando estável, para detectar mudança de comportamento antes que ela produza sintoma. Dois pontos práticos:
- Compare imagem com imagem, não laudo com laudo. Guarde todos os arquivos e leve-os a cada consulta.
- Nem toda mudança na ressonância é progressão. Alterações pós-tratamento podem imitar crescimento tumoral. Os critérios de avaliação de resposta em neuro-oncologia foram atualizados para se aplicarem a gliomas de todos os graus, independentemente do estado de IDH [9].
Para o panorama dos demais tipos de tumor cerebral, veja tumores cerebrais.
Quando procurar atendimento
Procure o pronto-socorro ou acione o SAMU (192) diante de:
- Crise convulsiva, a primeira ou uma diferente das anteriores.
- Piora rápida da força, da fala, da visão ou da consciência.
- Dor de cabeça intensa com vômitos repetidos e sonolência.
- Febre com piora neurológica, sobretudo após cirurgia recente.
Agende avaliação, sem caráter de emergência, se a ressonância de controle mostrou mudança, se surgiu sintoma novo de evolução lenta ou se você quer entender um laudo que não foi explicado. Leve as imagens de todos os exames e o laudo completo da patologia.
Perguntas frequentes
Astrocitoma grau 2 é benigno? Não é o termo adequado. Grau 2 descreve crescimento mais lento, não ausência de consequência — e é justamente por isso que o seguimento por imagem continua por anos.
Meu laudo antigo dizia "astrocitoma anaplásico". Esse nome sumiu? A nomenclatura mudou com a 5ª edição da classificação da OMS. Leve o laudo à consulta e peça a correspondência com a classificação vigente: é uma pergunta objetiva, com resposta objetiva.
Astrocitoma grau 4 e glioblastoma são a mesma coisa? Não. Na classificação vigente, glioblastoma designa o glioma difuso do adulto sem mutação de IDH; astrocitoma IDH-mutante grau 4 é outro tipo, com outro seguimento. Detalhes em glioblastoma.
Preciso refazer os testes moleculares em outro serviço? Em geral, não. A segunda opinião costuma revisar o material já existente — lâminas, bloco de parafina e imagens.
Agende uma avaliação. Segunda opinião também é uma consulta.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
Louis DN, Perry A, Wesseling P, Brat DJ, Cree IA, Figarella-Branger D, et al. The 2021 WHO Classification of Tumors of the Central Nervous System: a summary. Neuro Oncol. 2021;23(8):1231-1251. DOI: https://doi.org/10.1093/neuonc/noab106 (PMID: 34185076)
Weller M, van den Bent M, Preusser M, Le Rhun E, Tonn JC, Minniti G, et al. EANO guidelines on the diagnosis and treatment of diffuse gliomas of adulthood. Nat Rev Clin Oncol. 2021;18(3):170-186. DOI: https://doi.org/10.1038/s41571-020-00447-z (PMID: 33293629)
Pratt D, Penas-Prado M, Gilbert MR. Clinical impact of molecular profiling in rare brain tumors. Curr Opin Neurol. 2023;36(6):579-586. DOI: https://doi.org/10.1097/WCO.0000000000001211 (PMID: 37973025)
Pohl S, Dimitrova L, Grassow-Narlik M, Jöhrens K, Acker T, Dohmen H, et al. Update on quality assurance in neuropathology: Summary of the round robin trials on promoter mutation, mutation, 1p/19q codeletion, and fusion testing in Germany in 2020 and 2021. Clin Neuropathol. 2023;42(3):112-121. DOI: https://doi.org/10.5414/NP301547 (PMID: 36999511)
Brat DJ, Aldape K, French PJ, Louis DN, Nasrallah MP, Reifenberger G, et al. cIMPACT-NOW update 12: Refining Pathology-based Risk Stratification and Grading for IDH-mutant Gliomas. Neuro Oncol. 2026. Publicação online antecipada. DOI: https://doi.org/10.1093/neuonc/noag108 (PMID: 42152226)
Tesileanu CMS, van den Bent MJ, Sanson M, Wick W, Brandes AA, Clement PM, et al. Prognostic significance of genome-wide DNA methylation profiles within the randomized, phase 3, EORTC CATNON trial on non-1p/19q deleted anaplastic glioma. Neuro Oncol. 2021;23(9):1547-1559. DOI: https://doi.org/10.1093/neuonc/noab088 (PMID: 33914057)
van den Bent MJ, Franceschi E, Touat M, French PJ, Idbaih A, Lombardi G, et al. Updated EANO guideline on rational molecular testing of gliomas, glioneuronal, and neuronal tumors in adults for targeted therapy selection — Update 1. Neuro Oncol. 2025;27(2):331-337. DOI: https://doi.org/10.1093/neuonc/noae213 (PMID: 39387386)
Mellinghoff IK, van den Bent MJ, Blumenthal DT, Touat M, Peters KB, Clarke J, et al. Vorasidenib in IDH1- or IDH2-Mutant Low-Grade Glioma. N Engl J Med. 2023;389(7):589-601. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2304194 (PMID: 37272516)
Phillips KA, Kamson DO, Schiff D. Disease Assessments in Patients with Glioblastoma. Curr Oncol Rep. 2023;25(9):1057-1069. DOI: https://doi.org/10.1007/s11912-023-01440-2 (PMID: 37470973)
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