Bioestimuladores são produtos injetáveis que não repõem volume por si mesmos: eles provocam uma resposta do próprio tecido, que ao longo de semanas a meses produz colágeno. É essa a diferença em relação ao preenchimento.
O efeito é progressivo, costuma exigir mais de uma sessão e não é revertido por hialuronidase. A evidência disponível é menos robusta do que a divulgação sugere, e este texto diz onde ela é frágil.
Como um bioestimulador age
As duas substâncias mais estudadas com essa finalidade na face são o ácido poli-L-lático e a hidroxiapatita de cálcio. Ambas funcionam como estímulo: o organismo reage à presença do material e produz colágeno novo na região, processo descrito na literatura como neocolagênese [1].
Os tecidos do rosto são organizados em camadas, e a resposta se dá no tecido conjuntivo [2]. O produto não permanece como volume próprio: quem sustenta o resultado é o tecido do paciente.
Por que não é preenchimento
O preenchimento com ácido hialurônico repõe volume no momento da aplicação e pode ser degradado por hialuronidase [3]. O bioestimulador não tem essa via de reversão: a enzima atua sobre o ácido hialurônico, não sobre produtos de outra composição.
São indicações e riscos distintos, e a escolha depende da avaliação. Veja Preenchimento com ácido hialurônico e, sobre a redução de contração muscular, Toxina botulínica.
Por que o resultado demora e por que costuma haver mais de uma sessão
Como o efeito depende de produção de colágeno pelo próprio tecido, não há como avaliá-lo no dia da aplicação. Os estudos acompanham os pacientes por meses justamente por isso [1,4].
O tratamento raramente é uma sessão isolada. Em análise retrospectiva de 274 sessões em 167 pacientes, o número variou de uma a cinco por pessoa [5]. Quantas sessões cabem em cada caso é decisão de avaliação, não regra.
O que a evidência mostra sobre duração
Uma revisão sistemática de 14 estudos sobre ácido poli-L-lático e hidroxiapatita de cálcio na face relatou efeitos mantidos por até 25 meses para o primeiro e de 12 a 18 meses para a segunda [1].
Uma segunda revisão sistemática, restrita a 11 ensaios randomizados selecionados entre 1.467 citações, encontrou aumento de espessura dérmica e melhora em escalas clínicas, com efeito mantido por pelo menos 25 meses em quatro estudos.
Mas classificou cinco dos onze ensaios como de alto risco de viés e concluiu que a evidência é de baixa qualidade, recomendando que eficácia, segurança e durabilidade sejam mais bem investigadas [4].
As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo: os números existem e a qualidade da evidência que os produz é limitada.
O que é evidência independente e o que é material de fabricante
Boa parte do que circula sobre bioestimuladores vem de consensos de especialistas e de séries observacionais, não de ensaios comparativos.
Um consenso internacional sobre uso corporal do ácido poli-L-lático declara que a base de evidência consiste em grande parte em análises observacionais prospectivas e séries de casos, atribui a si mesmo nível de evidência IV e inclui, entre os autores, profissionais vinculados ao fabricante [6].
Isso não invalida o documento: significa que ele deve ser lido como recomendação de prática, não como demonstração de eficácia.
Quem não é candidato
O consenso de prevenção de complicações com injetáveis coloca a história clínica detalhada como passo central da avaliação, com exame da região, registro fotográfico padronizado e preparo da pele [7].
Infecção ativa na área e antecedente de hipersensibilidade a componentes do produto contraindicam ou adiam o procedimento [7]. Nódulos inflamatórios podem ser desencadeados por eventos infecciosos e imunológicos, o que torna relevante relatar doenças autoimunes e infecções recentes [8].
Como a resposta depende do tecido do próprio paciente, o resultado não é padronizável entre pessoas — e a irreversibilidade relativa torna a conversa prévia mais importante, não menos.
Nódulos: o que se sabe
As revisões sistemáticas classificam os eventos adversos como leves a moderados, sendo os mais frequentes hematoma, dor no local, edema e nódulos [1,4].
Nas séries clínicas os casos são pontuais: uma análise retrospectiva de 167 pacientes registrou um nódulo, 30 dias após o tratamento facial, resolvido sem procedimento invasivo [5]; um estudo prospectivo com 52 pacientes registrou uma nodulação pequena e indolor, também resolvida sem intervenção [9].
Esses estudos são pequenos, de um ou dois centros, e não permitem estimar uma taxa. A revisão sistemática registra ainda um caso grave isolado de necrose por compressão com hidroxiapatita de cálcio [1].
Quando procurar atendimento
Procure a equipe que realizou o procedimento se aparecer:
- nódulo palpável ou visível, em qualquer momento após a aplicação
- vermelhidão que aumenta, calor local, secreção ou febre
- dor que não diminui ou que piora depois dos primeiros dias
- endurecimento, irregularidade ou assimetria que persiste
Procure atendimento imediato, em pronto-socorro se a equipe não estiver acessível, diante de dor desproporcional durante ou logo após a aplicação, palidez da pele, manchas arroxeadas em rede ou qualquer alteração visual.
Esses sinais indicam suspeita de comprometimento vascular, descrita em detalhe em Preenchimento com ácido hialurônico.
Quem pode realizar e o que determina o valor
A aplicação é ato de saúde regulamentado, feito por profissional habilitado e legalmente autorizado, com produto registrado na Anvisa, em serviço preparado para conduzir uma complicação.
O valor é definido após a avaliação e depende das regiões avaliadas, do produto, do número de sessões previstas e da estrutura do atendimento.
Perguntas frequentes
Em quanto tempo eu vejo alguma coisa? O efeito depende da produção de colágeno pelo tecido e é avaliado ao longo de meses, não de dias [1,4].
Bioestimulador é a mesma coisa que preenchimento? Não. O preenchimento repõe volume na hora; o bioestimulador provoca uma resposta do tecido ao longo do tempo.
Dá para dissolver se eu não gostar? Não pela mesma via do ácido hialurônico. A hialuronidase degrada ácido hialurônico [3], e não é solução para produtos de outra composição.
Quantas sessões vou precisar? Não há número fixo. Nos estudos, os pacientes receberam de uma a cinco sessões [5], e a definição é individual.
Agende uma avaliação.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
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Weber GC, Buhren BA, Schrumpf H, Wohlrab J, Gerber PA. Clinical applications of hyaluronidase. Adv Exp Med Biol. 2019;1148:255-277. DOI: https://doi.org/10.1007/978-981-13-7709-9_12 (PMID: 31482503)
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