O desvio de septo é uma alteração muito comum da parede que divide as duas fossas nasais, e por si só não é doença. O que define a conduta é o sintoma: obstrução nasal persistente que não cede com tratamento clínico bem feito. Um desvio visto em tomografia, em alguém que respira bem, não é motivo para operar.
O que é o desvio de septo
O septo é formado por cartilagem na frente e osso atrás, revestido por mucosa. Quando foge da linha média, uma das fossas nasais fica mais estreita.
O desvio pode ser de nascimento, decorrente do crescimento facial, ou consequência de trauma nasal — inclusive antigo, que o paciente já não lembra. A maioria dos adultos tem algum grau de desvio; a minoria tem sintoma por causa dele.
Quando o desvio é sintomático e quando é só achado de exame
O sintoma característico é obstrução nasal assimétrica, pior de um lado, às vezes com boca seca ao acordar, ronco e sangramentos de repetição na mesma narina.
A obstrução que muda de lado ao longo do dia, ou que só aparece em crises com espirros e coriza, costuma ter componente inflamatório — não é o septo que manda ali.
Achado de exame é diferente de diagnóstico. O consenso da Academia Americana de Otorrinolaringologia registra que a tomografia pode não representar com fidelidade o grau real do desvio: a imagem não decide sozinha.
Como é feita a avaliação
A consulta começa pela história — há quanto tempo, de que lado, o que já foi usado — e pelo exame da parte anterior do nariz.
A nasofibroscopia mostra o que a rinoscopia não alcança: desvios posteriores, esporões, cornetos aumentados, pólipos e a região do cavum. É um exame de consultório, feito com endoscópio fino.
A tomografia dos seios da face não é rotina para diagnosticar desvio. Entra quando há suspeita de doença dos seios paranasais associada ou planejamento cirúrgico específico.
O tratamento clínico vem antes do cirúrgico
Antes de discutir cirurgia, trata-se a mucosa: parte importante da obstrução vem de inflamação nasal e responde a tratamento clínico.
O consenso internacional sobre rinite alérgica (ICAR 2023) traz recomendações fortes para corticoide intranasal, solução salina nasal, anti-histamínicos de geração mais nova e a combinação de corticoide com anti-histamínico tópico quando a monoterapia não basta. O mesmo documento recomenda contra o uso isolado de descongestionante oral e contra corticoide oral de rotina.
Só depois de um período adequado de tratamento clínico é possível saber quanto da obstrução é estrutural — e é essa parcela que a cirurgia corrige.
Rinite alérgica não tratada mantém o nariz entupido depois da cirurgia
Este é o ponto que mais frustra expectativa. A septoplastia corrige a estrutura; ela não trata alergia.
Se a rinite seguir sem controle, a mucosa continua inflamada e o nariz continua entupido, mesmo com o septo bem posicionado. Uma metanálise de pacientes com desvio e rinite alérgica mostrou ganho sintomático com a cirurgia, mas o manejo clínico da alergia segue sendo parte do tratamento, não um detalhe opcional.
Leia mais no nosso pilar sobre rinite alérgica.
Como é a septoplastia, com ou sem redução de cornetos
A septoplastia é feita por dentro do nariz, sem corte externo, geralmente sob anestesia geral. O cirurgião descola a mucosa, remove ou reposiciona as porções desviadas de cartilagem e osso e recoloca a mucosa.
Havendo hipertrofia de cornetos, pode ser feita redução do corneto inferior no mesmo tempo cirúrgico. Revisão sistemática com 12 ensaios randomizados e 775 participantes encontrou melhor alívio subjetivo da obstrução com a redução associada, e taxa de eventos adversos mais alta que a septoplastia isolada — é decisão individual, não automática.
O tamponamento nasal clássico deixou de ser obrigatório em muitos serviços: o consenso registra que suturas de fixação do septo podem dispensar o tampão.
Riscos e complicações
É um procedimento de baixo risco, mas não isento. Em metanálise de ensaios randomizados com 721 pacientes, as taxas variaram de 0,31% para reoperação a 4,12% para sangramento e infecção.
No ensaio randomizado holandês publicado no Lancet, entre 102 pacientes operados houve um abscesso septal e duas perfurações de septo.
Outras possibilidades incluem sinéquias (aderências entre a parede lateral e o septo), crostas prolongadas, alteração transitória do olfato e desvio residual.
Ajuste de expectativa
A septoplastia melhora a passagem de ar. Ela não promete nariz perfeitamente livre, não trata alergia, não muda a forma externa do nariz e não garante fim do ronco.
No ensaio randomizado, os operados tiveram qualidade de vida melhor que os tratados clinicamente, com diferença média de 8,3 pontos na escala usada e efeito mantido até 24 meses. É um ganho real e mensurável — e diferente de cura.
Parte dos pacientes mantém algum grau de obstrução, sobretudo quando há rinite não controlada.
Quando procurar atendimento
- Obstrução nasal de um lado que persiste após tratamento clínico adequado
- Sangramentos nasais repetidos sempre da mesma narina
- Obstrução unilateral progressiva acompanhada de dor facial, secreção com sangue ou alteração da visão
- Ronco com pausas respiratórias observadas por outra pessoa e sonolência durante o dia
- Trauma nasal recente com deformidade ou nariz totalmente obstruído
- Obstrução nasal em criança com respiração bucal e sono agitado
Perguntas frequentes
Todo desvio de septo precisa operar? Não. Opera-se o sintoma, não a imagem. Sem obstrução relevante e sem falha do tratamento clínico, não há indicação.
Septoplastia muda o formato do nariz? A septoplastia é funcional e atua na estrutura interna. Alterações do formato externo pertencem à rinoplastia, que é outro procedimento, com outra indicação e outro planejamento.
Preciso fazer tomografia para saber se tenho desvio? Na maioria dos casos não. O exame clínico com nasofibroscopia responde à pergunta. A tomografia é reservada a situações específicas.
A cirurgia resolve o ronco? Pode ajudar quando a obstrução nasal é um fator, mas ronco e apneia do sono têm causas próprias e exigem investigação específica.
Leia também: Como é a recuperação da septoplastia, semana a semana
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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
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