Uma noite ruim não é um distúrbio do sono. O que define um distúrbio é a persistência do padrão e o prejuízo que ele causa de dia — e cada um tem investigação e tratamento próprios. Esta página trata de insônia crônica, narcolepsia e sonolência excessiva, pernas inquietas e da relação entre sono e doença neurológica.
Apneia do sono e ronco
A apneia obstrutiva é um distúrbio da via aérea superior, acompanhado pela otorrinolaringologia. Se a queixa é ronco alto ou pausas na respiração relatadas por quem dorme ao lado, o texto é apneia do sono e ronco. Ela também aparece aqui como agravante: precisa ser tratada antes de se concluir que um sintoma noturno tem outra origem [4].
Insônia crônica: por que a primeira linha não é medicamento
A insônia crônica é frequente: estima-se que 6% a 10% dos europeus a apresentem [7].
O tratamento de primeira linha é a terapia cognitivo-comportamental para insônia, com recomendação forte da American Academy of Sleep Medicine — a categoria que os clínicos devem seguir na maioria das circunstâncias [1]. É intervenção estruturada, conduzida em sessões, não um conselho.
Alguns componentes têm recomendação isolada, mais fraca: controle de estímulos, restrição de sono e relaxamento [1]. A revisão que sustenta a diretriz avaliou 124 estudos [2].
Higiene do sono: a parte mal contada
A mesma diretriz é explícita num ponto que quase nunca aparece nas listas de internet: a AASM sugere que os clínicos não usem higiene do sono como terapia isolada [1].
Horário regular, quarto escuro, menos cafeína e menos tela têm lugar dentro de um tratamento — mas não são o tratamento. Quem tentou a lista e não dormiu não fracassou; usou a ferramenta errada sozinha.
Nem todo mundo responde: cerca de um quarto dos tratados não responde de forma suficiente [7]. Exercício físico, estudado como intervenção adicional, mostrou melhora do sono, com heterogeneidade importante entre os estudos [7].
Narcolepsia e sonolência excessiva
Dormir mal de noite explica boa parte do sono de dia. Quando não explica, a sonolência excessiva merece investigação: é sintoma de um grupo de condições chamadas distúrbios centrais de hipersonolência, que inclui a narcolepsia [6].
A narcolepsia é um distúrbio hipotalâmico incomum, presumidamente autoimune, que em geral exige tratamento por toda a vida [3]. Além da sonolência, pode haver cataplexia — perda súbita e breve do tônus muscular desencadeada por emoção. O manejo combina medidas não farmacológicas e medicamentosas: as sestas programadas têm recomendação forte na diretriz europeia [3].
Sonolência excessiva também aparece dentro de doenças neurológicas — Parkinson, demência com corpos de Lewy, esclerose múltipla, traumatismo cranioencefálico [6]. Por isso a queixa não deve ser tratada apenas como "falta de dormir".
Síndrome das pernas inquietas
É a necessidade de mexer as pernas, com desconforto que piora no repouso e à noite e alivia com o movimento.
A conduta inicial tem uma etapa que costuma ser pulada: avaliar o ferro. A AASM orienta dosar ferritina e saturação de transferrina em quem tem sintomas clinicamente significativos, porque o resultado muda a decisão de tratamento [4].
Depois se remove o que agrava: álcool, cafeína, apneia não tratada e algumas classes de medicamentos — anti-histamínicos, serotoninérgicos e antidopaminérgicos [4]. A síndrome é comum na gravidez, quando a segurança de cada opção precisa ser considerada [4].
A diretriz de 2025 passou a sugerir contra o uso rotineiro dos agonistas dopaminérgicos, antes centrais na prática [4]. Quem usa um tratamento antigo para pernas inquietas tem aí um assunto de reavaliação — em consulta, nunca por conta própria.
Encenar sonhos: o transtorno comportamental do sono REM
Normalmente o corpo fica paralisado durante o sono REM. Nesse transtorno a paralisia falha e a pessoa executa o sonho: fala, gesticula, chuta, cai da cama, às vezes se machuca ou machuca quem dorme ao lado [5]. O diagnóstico definitivo exige história clínica e confirmação por vídeo-polissonografia [5]. O manejo envolve orientação, segurança do quarto e medicação [5].
Por que interessa à neurologia: o quadro é reconhecido como manifestação de alfa-sinucleinopatia, e a maior parte dos adultos mais velhos com a forma isolada acaba desenvolvendo uma síndrome neurodegenerativa ao longo do tempo [5].
É informação séria, e por isso pede acompanhamento neurológico — não interpretação isolada de um sintoma noturno, que também pode estar associado ao uso de antidepressivos [5]. Veja Parkinson e distúrbios do movimento.
O que a polissonografia responde
Registra o que o corpo faz durante a noite: eventos respiratórios, movimentos e a atividade muscular no sono REM — obrigatória para confirmar o transtorno comportamental do sono REM [5]. Não é o exame que define a conduta na insônia crônica, cujo tratamento de primeira linha é comportamental [1]. Veja exames neurológicos.
Quando procurar atendimento
Vá ao pronto-socorro se a sonolência excessiva se instalou de forma súbita, com confusão, dor de cabeça intensa ou alteração neurológica nova — o quadro deixa de ser de sono.
Procure avaliação sem esperar a rotina diante de sonolência que atrapalha dirigir ou trabalhar; perda súbita de força desencadeada por emoção; comportamentos noturnos com risco de lesão; ou insônia que persiste apesar de tentativas organizadas de tratamento.
Não dirija com sonolência. Um cochilo ao volante ou um quase acidente é a informação mais importante a levar para a consulta.
Perguntas frequentes
Remédio para dormir resolve insônia crônica? A recomendação forte de primeira linha é a terapia cognitivo-comportamental [1]. Medicação tem lugar em situações específicas e é decisão de consulta.
Durmo oito horas e acordo cansado. É insônia? Não necessariamente. Sono de duração suficiente e não restaurador aponta para outras causas — apneia entre elas — e é motivo para investigar, não para aumentar o tempo na cama.
Meu marido chuta e grita dormindo. É normal? Encenar sonhos não é o padrão esperado do sono REM e merece avaliação, pelo risco de lesão e pelo significado neurológico [5].
Tenho pernas inquietas. Preciso de exame? A diretriz orienta avaliar o ferro, porque o resultado muda o tratamento [4]. O diagnóstico em si é clínico.
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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
- Edinger JD, Arnedt JT, Bertisch SM, Carney CE, Harrington JJ, Lichstein KL, et al. Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):255-262. DOI: https://doi.org/10.5664/jcsm.8986 (PMID: 33164742)
- Edinger JD, Arnedt JT, Bertisch SM, Carney CE, Harrington JJ, Lichstein KL, et al. Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine systematic review, meta-analysis, and GRADE assessment. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):263-298. DOI: https://doi.org/10.5664/jcsm.8988 (PMID: 33164741)
- Bassetti CLA, Kallweit U, Vignatelli L, Plazzi G, Lecendreux M, Baldin E, et al. European guideline and expert statements on the management of narcolepsy in adults and children. Eur J Neurol. 2021;28(9):2815-2830. DOI: https://doi.org/10.1111/ene.14888 (PMID: 34173695)
- Winkelman JW, Berkowski JA, DelRosso LM, Koo BB, Scharf MT, Sharon D, et al. Treatment of restless legs syndrome and periodic limb movement disorder: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2025;21(1):137-152. DOI: https://doi.org/10.5664/jcsm.11390 (PMID: 39324694)
- Dauvilliers Y, Schenck CH, Postuma RB, Iranzo A, Luppi PH, Plazzi G, et al. REM sleep behaviour disorder. Nat Rev Dis Primers. 2018;4(1):19. DOI: https://doi.org/10.1038/s41572-018-0016-5 (PMID: 30166532)
- Maski K, Trotti LM, Kotagal S, Auger RR, Swick TJ, Rowley JA, et al. Treatment of central disorders of hypersomnolence: an American Academy of Sleep Medicine systematic review, meta-analysis, and GRADE assessment. J Clin Sleep Med. 2021;17(9):1895-1945. DOI: https://doi.org/10.5664/jcsm.9326 (PMID: 34743790)
- Riedel A, Benz F, Deibert P, Barsch F, Frase L, Johann AF, et al. The effect of physical exercise interventions on insomnia: a systematic review and meta-analysis. Sleep Med Rev. 2024;76:101948. DOI: https://doi.org/10.1016/j.smrv.2024.101948 (PMID: 38749363)
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