Espondilolistese é o deslizamento de uma vértebra para a frente sobre a que está abaixo dela. Na maioria dos casos ela é acompanhada clinicamente, sem cirurgia. O que define a conduta é o sintoma e a limitação que ele causa, não o número do grau no laudo.

O que escorregou, e por que

Cada vértebra se apoia na de baixo por três pontos: o disco, na frente, e duas articulações facetárias, atrás. Quando essa amarração perde estabilidade, a vértebra de cima desliza um pouco para a frente.

Isso quase nunca acontece de repente. É um processo lento, e muita gente convive com o escorregamento por anos sem saber que ele existe.

Os dois tipos que mudam a conduta

Ístmica. Existe uma falha em uma pequena ponte óssea da vértebra, chamada pars interarticularis. Essa falha é a espondilólise, e quando a vértebra desliza a partir dela o quadro passa a ser espondilolistese ístmica.

Aparece cedo, em geral em adolescentes e adultos jovens, e é mais comum em quem pratica esportes que exigem hiperextensão repetida da lombar, como ginástica, levantamento de peso e mergulho [1].

Numa amostra de base comunitária avaliada por tomografia, a espondilólise apareceu em 11,5% das pessoas, com prevalência cerca de três vezes maior em homens [2]. Ou seja: é um achado frequente, e frequentemente silencioso.

Degenerativa. Aqui não há falha óssea. O disco perde altura e as facetas se desgastam, e a estabilidade da junta se reduz. É a forma típica do adulto acima dos 50 anos, mais comum em mulheres, e costuma aparecer em L4-L5 [3].

A conduta difere porque o problema é outro. Na ístmica do jovem, discute-se estabilizar ou reparar uma falha óssea. Na degenerativa do adulto, o que costuma incomodar é o estreitamento do canal que vem junto.

Por que o grau isolado não define a indicação

O escorregamento é medido em graus de I a IV, conforme o quanto a vértebra avançou sobre a de baixo. O paciente lê "grau II" e entende que existe uma escala de gravidade que decide a cirurgia. Não é assim que a decisão é tomada.

A recomendação de operar se apoia na correlação entre limitação física significativa e o achado de imagem, depois de tratamento conservador que não resolveu [4]. Um grau I muito sintomático pesa mais na decisão do que um grau II descoberto por acaso.

Os dois tipos de dor, e o que cada um significa

Dor axial. Dor na região lombar, em faixa, que piora ao ficar muito tempo em pé, ao estender a coluna para trás e no fim do dia. Costuma ser a queixa inicial.

Dor de compressão neural. Quando o escorregamento estreita a passagem das raízes nervosas, aparece dor que desce pela perna, formigamento ou perda de força. Se o padrão é de peso e dormência nas pernas ao caminhar, que melhora ao sentar, o quadro se sobrepõe ao da estenose de canal lombar. Se a dor desce em faixa por trajeto de uma raiz, o quadro se aproxima do da hérnia de disco lombar.

Separar os dois muda o tratamento e muda o que se pode esperar dele.

O que o tratamento conservador oferece

Na maior parte dos casos o plano inicial não é cirúrgico. Ele combina manutenção da atividade possível, fisioterapia com progressão de carga, ajuste das atividades que provocam extensão repetida da lombar e analgesia orientada em consulta.

No adolescente com espondilólise, o eixo do tratamento é modificação de atividade e fisioterapia em fases, e a maioria retorna ao esporte após o tratamento conservador [1].

Sono, condicionamento, peso corporal, carga de trabalho e estresse influenciam a intensidade da dor e o tempo de recuperação [5]. Isso não quer dizer que a dor seja imaginária — quer dizer que esses fatores entram no plano porque mexem no resultado.

Quando a descompressão e a artrodese entram

A descompressão retira o que está apertando as raízes nervosas. É o procedimento que trata o sintoma da perna.

A artrodese (fusão) une duas vértebras para eliminar o movimento entre elas. Ela não é automática.

Diretriz baseada em GRADE concluiu que, na espondilolistese degenerativa sem sinais de instabilidade, os resultados da descompressão isolada e da descompressão com fusão são comparáveis, o que favorece a descompressão simples quando se pesam riscos e custos; para o escorregamento instável, a evidência não permitiu formular recomendação [4].

Em adultos jovens selecionados com espondilólise ou escorregamento grau I, existe ainda o reparo direto da falha óssea, que preserva o movimento do segmento. Revisão sistemática de 47 estudos e 590 adultos operados descreve complicações em 11,9% dos casos [6].

Nenhuma dessas opções é indicada pelo laudo. Todas dependem do que o sintoma está impedindo na sua vida.


Quando procurar atendimento

Procure avaliação médica se a dor na perna vem piorando, se a distância que você consegue caminhar vem caindo, ou se surge dormência persistente ou fraqueza no pé.

Síndrome da cauda equina é emergência cirúrgica. Procure um pronto-socorro imediatamente diante de:

  • retenção urinária ou incontinência urinária ou fecal;
  • anestesia em sela (perda de sensibilidade na região genital, perineal e interna das coxas);
  • déficit motor progressivo, especialmente bilateral.

Procure avaliação também em caso de febre associada à dor lombar, dor após trauma, ou dor em paciente com câncer, imunossupressão ou osteoporose.


Perguntas frequentes

A vértebra pode escorregar mais com o tempo? Pode, mas não é a regra, e não acontece em ritmo previsível. O acompanhamento observa sintoma e função, e a imagem é repetida quando o quadro muda.

Posso fazer musculação com espondilolistese? Em geral sim, com orientação. O que costuma ser ajustado são exercícios com extensão forçada e carga axial alta sobre a lombar. A liberação é individual.

Meu filho joga futebol e tem espondilólise. Ele para de vez? Não necessariamente. O tratamento inicial é modificação de atividade e fisioterapia por fases, com retorno progressivo ao esporte [1].

Se eu operar, minha coluna fica travada? A artrodese elimina o movimento apenas do segmento fundido, e nem toda cirurgia inclui artrodese [4]. A perda funcional percebida depende de quantos níveis são fundidos e da sua mobilidade prévia.


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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Mohile NV, Kuczmarski AS, Lee D, Warburton C, Rakoczy K, Butler AJ. Spondylolysis and isthmic spondylolisthesis: a guide to diagnosis and management. J Am Board Fam Med. 2022;35(6):1204-16. DOI: https://doi.org/10.3122/jabfm.2022.220130R1 (PMID: 36526328)
  2. Kalichman L, Guermazi A, Li L, Hunter DJ, Suri P. Facet orientation and tropism: associations with spondylolysis. J Spinal Disord Tech. 2010;23(2):101-5. DOI: https://doi.org/10.1097/BSD.0b013e31819afb80 (PMID: 20072037)
  3. Matz PG, Meagher RJ, Lamer T, Tontz WL, Annaswamy TM, Cassidy RC, et al. Guideline summary review: an evidence-based clinical guideline for the diagnosis and treatment of degenerative lumbar spondylolisthesis. Spine J. 2016;16(3):439-48. DOI: https://doi.org/10.1016/j.spinee.2015.11.055 (PMID: 26681351)
  4. Kaiser R, Kantorová L, Langaufová A, Slezáková S, Tučková D, Klugar M, et al. Surgical treatment of degenerative lumbar stenosis and spondylolisthesis: clinical practice guideline. Acta Chir Orthop Traumatol Cech. 2023;90(3):157-67. (PMID: 37395422)
  5. Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A, Louw Q, Ferreira ML, Genevay S, et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018;391(10137):2356-67. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)30480-X (PMID: 29573870)
  6. Kumar N, Madhu S, Pandita N, Ramos MRD, Tan BWL, Lopez KG, et al. Is there a place for surgical repair in adults with spondylolysis or grade-I spondylolisthesis — a systematic review and treatment algorithm. Spine J. 2021;21(8):1268-85. DOI: https://doi.org/10.1016/j.spinee.2021.03.011 (PMID: 33757872)

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