A hérnia de disco lombar é o deslocamento de parte do disco entre duas vértebras em direção ao canal onde passam as raízes nervosas. Quando essa parte comprime ou inflama uma raiz, aparece a dor que desce pela perna, a ciática. A maior parte dos casos melhora sem cirurgia, e a decisão de operar depende do quadro clínico, não do tamanho da hérnia na imagem.

O que é a hérnia e por que ela dói

O disco tem um anel fibroso externo e um núcleo gelatinoso. Com o tempo, o anel perde resistência e o núcleo pode se deslocar.

A dor raramente vem do disco em si. Vem da raiz nervosa comprimida e inflamada, o que explica a dor em faixa descendo pela nádega, coxa e perna, com formigamento ou perda de força.

Abaulamento, protrusão, extrusão: o que o laudo está dizendo

Esses termos descrevem geometria, não gravidade. A nomenclatura padronizada por sociedades de coluna e de radiologia define cada um deles [1].

  • Abaulamento (bulging): o disco ultrapassa seu contorno em mais de 25% da circunferência. Não é hérnia.
  • Protrusão: saliência focal cuja base é mais larga que a parte deslocada.
  • Extrusão: a parte deslocada é mais larga que a base, ou ultrapassa o nível do disco.
  • Sequestro: fragmento que se separou completamente do disco.
  • Osteófito ("bico de papagaio"): crescimento ósseo degenerativo, achado comum, não é hérnia.

Achado de imagem não é diagnóstico

Este é o ponto mais importante da página. Uma revisão sistemática que reuniu exames de 3.110 pessoas sem dor mostrou que os achados degenerativos são comuns em quem não tem sintoma nenhum, e que aumentam com a idade [2].

Entre pessoas assintomáticas, a degeneração discal apareceu em 37% aos 20 anos e em 96% aos 80. O abaulamento discal foi de 30% aos 20 anos a 84% aos 80. A protrusão foi de 29% aos 20 anos a 43% aos 80 [2].

Encontrar protrusão ou abaulamento na ressonância não diz, sozinho, que aquela é a causa da dor. O diagnóstico cruza exame físico, distribuição da dor e imagem — nessa ordem.

A história natural costuma ser favorável

A maioria das ciáticas por hérnia melhora em semanas a poucos meses com tratamento não cirúrgico. Em um ensaio randomizado com 283 pacientes com 6 a 12 semanas de ciática, a cirurgia precoce aliviou a dor mais rápido, mas ao final de um ano os resultados dos dois grupos eram semelhantes, e assim permaneceram no segundo ano [3].

Nesse mesmo estudo, 44% dos pacientes designados para tratamento conservador acabaram operando ao longo do seguimento — o que mostra que "esperar" não é o mesmo que "não fazer nada", e sim acompanhar com critério [3].

O que o tratamento conservador resolve

Diretriz da North American Spine Society para hérnia lombar com radiculopatia reúne as opções não cirúrgicas e os critérios para cada uma [4]. Na prática, o conjunto que costuma ser proposto inclui:

  • manter a atividade possível, evitando repouso prolongado no leito;
  • analgesia orientada em consulta;
  • fisioterapia com progressão de carga e reeducação de movimento;
  • bloqueio radicular guiado, em casos selecionados de dor refratária.

A dor lombar também tem componentes que influenciam a recuperação: sono, condicionamento físico, peso, carga de trabalho e estresse [5].

Isso não significa que a dor seja imaginária. Significa que esses fatores mudam a intensidade percebida e o tempo de recuperação, e por isso entram no plano de tratamento.

Quando a cirurgia entra

A indicação cirúrgica se apoia em três situações, e não no tamanho da hérnia:

  1. Emergência: síndrome da cauda equina (ver bloco abaixo).
  2. Déficit neurológico relevante ou progressivo: perda de força que piora ao longo de dias.
  3. Dor radicular incapacitante que não cede após semanas de tratamento conservador bem conduzido, com imagem compatível com o quadro clínico.

Fora dessas situações, operar não costuma trazer vantagem sobre continuar o tratamento clínico.

Procedimentos: indicação e limite

Microdiscectomia. Retirada do fragmento que comprime a raiz, com microscópio e incisão pequena. É o procedimento com que as demais técnicas são comparadas nos estudos.

Discectomia endoscópica. Em ensaio randomizado de não inferioridade em pacientes com ciática, a discectomia endoscópica transforaminal não foi inferior à microdiscectomia aberta na redução da dor na perna em 12 meses, com menor sangramento e internação mais curta; as diferenças nos escores foram pequenas e podem não ter relevância clínica [6]. É uma alternativa efetiva em casos selecionados, não uma técnica superior para todos.

A escolha depende da localização e morfologia da hérnia, da anatomia, de cirurgias prévias e da avaliação individual.


Sinais de alerta — procure atendimento de emergência

Síndrome da cauda equina é emergência cirúrgica. Procure um pronto-socorro imediatamente diante de:

  • retenção urinária ou incontinência urinária ou fecal;
  • anestesia em sela (perda de sensibilidade na região genital, perineal e interna das coxas);
  • déficit motor progressivo, especialmente bilateral.

Revisão sistemática com metanálise de 15 estudos comparativos e 26.627 adultos identificou melhora significativa da recuperação urinária e neurológica quando a descompressão ocorre dentro de 48 horas do início dos sintomas, em comparação com prazos maiores [7]. Não espere consulta eletiva.

Procure avaliação também em caso de febre associada à dor lombar, dor após trauma, ou dor em paciente com câncer, imunossupressão ou osteoporose.


Perguntas frequentes

Hérnia de disco some? O fragmento herniado pode reduzir de tamanho ao longo dos meses, e a melhora dos sintomas frequentemente ocorre antes disso. O acompanhamento clínico é o que define a conduta.

Preciso repetir a ressonância para saber se melhorei? Não como rotina. A imagem é repetida quando há mudança do quadro, déficit novo ou planejamento cirúrgico.

Posso fazer exercício com hérnia de disco? Em geral sim, com orientação e progressão. Repouso prolongado no leito não é recomendado. O tipo de exercício se ajusta à fase e ao quadro.

Operar hérnia de disco resolve para sempre? A cirurgia trata a compressão da raiz. Recidiva de hérnia e dor persistente após a cirurgia existem e devem ser discutidas antes da decisão. Veja como é a recuperação da microdiscectomia, semana a semana.


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Referências

  1. Fardon DF, Williams AL, Dohring EJ, Murtagh FR, Gabriel Rothman SL, Sze GK. Lumbar disc nomenclature: version 2.0: Recommendations of the combined task forces of the North American Spine Society, the American Society of Spine Radiology and the American Society of Neuroradiology. Spine J. 2014;14(11):2525-45. DOI: https://doi.org/10.1016/j.spinee.2014.04.022
  2. Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B, Bresnahan BW, Chen LE, Deyo RA, et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol. 2015;36(4):811-6. DOI: https://doi.org/10.3174/ajnr.A4173
  3. Peul WC, van den Hout WB, Brand R, Thomeer RTWM, Koes BW. Prolonged conservative care versus early surgery in patients with sciatica caused by lumbar disc herniation: two year results of a randomised controlled trial. BMJ. 2008;336(7657):1355-8. DOI: https://doi.org/10.1136/bmj.a143
  4. Kreiner DS, Hwang SW, Easa JE, Resnick DK, Baisden JL, Bess S, et al. An evidence-based clinical guideline for the diagnosis and treatment of lumbar disc herniation with radiculopathy. Spine J. 2014;14(1):180-91. DOI: https://doi.org/10.1016/j.spinee.2013.08.003
  5. Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A, Louw Q, Ferreira ML, Genevay S, et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018;391(10137):2356-67. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)30480-X
  6. Gadjradj PS, Rubinstein SM, Peul WC, Depauw PR, Vleggeert-Lankamp CL, Seiger A, et al. Full endoscopic versus open discectomy for sciatica: randomised controlled non-inferiority trial. BMJ. 2022;376:e065846. DOI: https://doi.org/10.1136/bmj-2021-065846
  7. Najjar E, Egu C, Akil H, Najjar S, AlAchkar M, Muscogliati R, et al. Reassessing the clock in cauda equina syndrome: a systematic review and meta-analysis of surgical timing and outcomes. Spine J. 2026;26(9):1653-70. DOI: https://doi.org/10.1016/j.spinee.2026.04.013

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