Nariz, ouvido e garganta respondem pela maior parte das consultas da infância, e a maioria dessas queixas é comum e passageira. O que muda a conduta é o padrão: sintoma que se repete, que persiste ou que aparece toda noite. Criança que ronca todas as noites nunca é achado normal — merece avaliação, ainda que a causa seja simples.
Ronco todas as noites: o que ele significa
Roncar de vez em quando, durante um resfriado, é esperado. Roncar habitualmente — três ou mais noites por semana — é o sintoma de entrada do distúrbio respiratório obstrutivo do sono na infância.
Numa coorte norte-americana com mais de 11 mil crianças e adolescentes acompanhados por cinco anos, o ronco habitual associou-se a mais problemas de comportamento relatados pelos cuidadores, sem associação com os testes cognitivos aplicados [1].
O ensaio CHAT, com 464 crianças de 5 a 9 anos e apneia do sono, comparou adenotonsilectomia precoce com conduta expectante. Não houve diferença em atenção e função executiva, mas houve melhora em comportamento, qualidade de vida e polissonografia, que normalizou em 79% do grupo operado contra 46% do expectante [2].
Os critérios que sustentam a cirurgia, e quando a polissonografia é exigida antes dela [3], estão nas páginas de adenoide, amigdalite de repetição e apneia do sono e ronco.
Respiração bucal: por que investigar cedo
Criança que dorme de boca aberta, baba no travesseiro, acorda com a boca seca ou tem sono agitado sinaliza obstrução na via aérea de cima — nariz, adenoide ou amígdalas.
Num estudo escolar brasileiro com 1.911 crianças de 9 e 10 anos em Recife, as de padrão bucal tiveram pior qualidade de vida do que as de respiração nasal [4], e os autores concluem que diagnóstico e tratamento precoces reduzem as consequências.
Investigar cedo importa porque a causa muda a conduta: rinite alérgica não tratada mantém o nariz obstruído mesmo depois de uma cirurgia bem indicada — tema da página de rinite alérgica.
Otite de repetição e ouvido com líquido
Duas situações se confundem. A otite média aguda é a infecção com dor; a otite média com efusão é líquido no ouvido médio sem sinais de infecção aguda e frequentemente sem dor — a criança apenas não escuta bem.
A diretriz orienta conduta expectante por três meses na criança que não é de risco, e recomenda contra corticoide nasal ou sistêmico, antibiótico, anti-histamínico e descongestionante para tratar a otite com efusão [5]. A revisão Cochrane vai na mesma direção e lembra que, na maioria das crianças, a efusão se resolve sozinha [6].
O que fazer é vigiar e medir. O detalhamento está na página de otites.
Audição e atraso de fala
Aqui a otite deixa de ser só um incômodo. A diretriz recomenda teste auditivo apropriado para a idade quando a efusão persiste por três meses ou mais, ou em qualquer duração se a criança for de risco [5].
E orienta aconselhar as famílias de crianças com efusão bilateral e perda auditiva documentada sobre o impacto potencial no desenvolvimento da fala e da linguagem [5].
A revisão Cochrane registra que a efusão persistente pode levar a problemas de comportamento e a atraso nas habilidades de linguagem expressiva [6]. Criança que fala pouco para a idade, aumenta o volume da televisão ou não responde quando chamada de costas precisa de avaliação auditiva — não de "esperar amadurecer". A audição vem primeiro. Se ela estiver normal e o atraso persistir, ou se o atraso for de mais de uma área do desenvolvimento, o caminho é a neuropediatria.
Bebê que não passou na triagem auditiva neonatal exige seguimento documentado, para confirmar audição normal quando a efusão se resolve e excluir perda neurossensorial [5].
Os outros motivos frequentes de consulta
Nariz entupido o ano todo, espirros e coceira — quadro de rinite, tratado na página específica.
Sangramento nasal — comum na infância, quase sempre por manipulação e ressecamento da mucosa.
Dor de garganta de repetição — a contagem de episódios documentados sustenta a indicação cirúrgica [3].
Nódulo no pescoço — em criança, a maioria tem causa infecciosa ou inflamatória [7]. O critério de investigação está na página de cabeça e pescoço.
O que esperar da consulta com uma criança pequena
A consulta começa pela história contada pelos pais: como é a noite, como é a respiração, quantos episódios de infecção houve e quando. Vale anotar antes, com datas.
O exame é rápido e usa instrumentos pequenos: otoscopia, exame do nariz e da garganta. Em crianças colaborativas, a nasofibroscopia pode ser feita no consultório.
Nem toda consulta termina com exame ou cirurgia: muitas vezes a conduta é reavaliar em um intervalo definido — que é, ela própria, uma decisão clínica.
Quando procurar atendimento
Procure avaliação otorrinolaringológica se a criança:
- Ronca na maioria das noites, dorme agitada ou tem pausas na respiração observadas pelos pais
- Respira pela boca de forma habitual, acordada ou dormindo
- Teve episódios repetidos de otite ou dor de ouvido
- Não escuta bem, fala pouco para a idade ou não passou na triagem auditiva neonatal [5]
- Tem dores de garganta repetidas e documentadas [3]
Procure pronto-socorro se houver dificuldade para respirar, ruído ao inspirar, prostração, dificuldade de engolir a própria saliva ou sangramento nasal que não cessa com compressão.
Perguntas frequentes
Meu filho ronca desde bebê. Isso é normal? Ronco eventual em resfriado é esperado; ronco habitual não é achado normal e merece avaliação. O ronco é o sintoma de entrada do distúrbio respiratório obstrutivo do sono [1,2].
Otite de repetição sempre precisa de cirurgia? Não. A maioria das efusões se resolve sozinha [6], e a diretriz orienta observação por três meses na criança sem fator de risco [5]. O tubo entra por critério, não por número de episódios isolado.
Atraso de fala é sempre problema de audição? Nem sempre, mas a audição precisa ser checada antes de qualquer outra hipótese [5]. Se ela estiver normal, o atraso é avaliado pela neuropediatria.
Com que idade a criança pode fazer os exames? Depende do exame e da colaboração. Há avaliação auditiva para todas as idades, inclusive recém-nascidos; a nasofibroscopia depende da tolerância.
Leia também: Adenoide da criança: quando ela atrapalha e Otites: média, externa e serosa
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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
Isaiah A, Uddin S, Ernst T, Cloak C, Li D, Chang L. Cognitive and Behavioral Outcomes of Snoring Among Adolescents. JAMA Netw Open. 2024;7(11):e2444057. DOI: https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2024.44057 (PMID: 39514229)
Marcus CL, Moore RH, Rosen CL, Giordani B, Garetz SL, Taylor HG, et al. A randomized trial of adenotonsillectomy for childhood sleep apnea. N Engl J Med. 2013;368(25):2366-76. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa1215881 (PMID: 23692173)
Mitchell RB, Archer SM, Ishman SL, Rosenfeld RM, Coles S, Finestone SA, et al. Clinical Practice Guideline: Tonsillectomy in Children (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2019;160(1_suppl):S1-S42. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599818801757 (PMID: 30798778)
Leal RB, Gomes MC, Granville-Garcia AF, Goes PSA, de Menezes VA. Impact of breathing patterns on the quality of life of 9- to 10-year-old schoolchildren. Am J Rhinol Allergy. 2016;30(5):147-52. DOI: https://doi.org/10.2500/ajra.2016.30.4363 (PMID: 27657891)
Rosenfeld RM, Shin JJ, Schwartz SR, Coggins R, Gagnon L, Hackell JM, et al. Clinical Practice Guideline: Otitis Media with Effusion (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2016;154(1 Suppl):S1-S41. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599815623467 (PMID: 26832942)
Mulvaney CA, Galbraith K, Webster KE, Rana M, Connolly R, Tudor-Green B, et al. Topical and oral steroids for otitis media with effusion (OME) in children. Cochrane Database Syst Rev. 2023;12(12):CD015255. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD015255.pub2 (PMID: 38088821)
Pynnonen MA, Gillespie MB, Roman B, Rosenfeld RM, Tunkel DE, Bontempo L, et al. Clinical Practice Guideline: Evaluation of the Neck Mass in Adults. Otolaryngol Head Neck Surg. 2017;157(2_suppl):S1-S30. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599817722550 (PMID: 28891406)
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