Perda auditiva não é uma condição só. A primeira separação — se o problema está na condução do som ou no próprio ouvido interno e no nervo — define a conduta. E há uma situação que não espera: perda que surge de repente em um ouvido precisa de avaliação em dias.

Condutiva ou neurossensorial: a distinção que define a conduta

A perda condutiva é obstáculo mecânico: o som não chega ao ouvido interno. Cera obstruindo o conduto, líquido atrás do tímpano, perfuração, doença crônica do ouvido médio.

A perda neurossensorial é lesão do ouvido interno ou da via auditiva. O som chega, mas é processado de forma incompleta — daí a queixa de "ouvir, mas não entender", pior em ambiente com ruído.

A diretriz de perda auditiva súbita coloca essa distinção como primeira ação clínica diante de quem chega com queixa de audição [1]. A condutiva costuma ter tratamento dirigido à causa; a neurossensorial, reabilitação auditiva.

As causas mais comuns no adulto e no idoso

No adulto, as causas condutivas frequentes são cera obstrutiva, líquido no ouvido médio, perfuração e otite média crônica — esta última uma das principais causas evitáveis de perda auditiva no mundo [2]. Estão detalhadas na página sobre otites.

No idoso predomina a presbiacusia: o déficit sensorial mais prevalente nessa faixa, progressivo, associado a isolamento social e a comorbidades como fragilidade, quedas e depressão de início tardio [3].

Completam o quadro exposição a ruído, medicamentos ototóxicos, trauma craniano e doenças do ouvido interno. A diretriz de cera orienta examinar o conduto de quem usa aparelho auditivo em cada atendimento [4].

Surdez súbita de um ouvido é urgência

Perda neurossensorial que se instala em horas ou poucos dias, quase sempre em um ouvido e muitas vezes com zumbido ou tontura, é a surdez súbita, e na maioria dos casos não se identifica a causa [1].

Não espere ver se melhora. A diretriz orienta obter audiometria dentro de 14 dias do início dos sintomas e coloca o corticoide como opção de tratamento inicial dentro de duas semanas; o corticoide intratimpânico de resgate tem janela de 2 a 6 semanas [1]. Procurar atendimento é questão de dias, não de semanas.

A mesma diretriz recomenda contra tomografia de crânio e exames laboratoriais de rotina nessa investigação, e orienta avaliar patologia retrococlear por ressonância magnética ou potencial evocado auditivo de tronco encefálico [1].

Como é a avaliação

A audiometria tonal e vocal quantifica a perda e separa condutiva de neurossensorial; a imitanciometria avalia a mobilidade do tímpano e documenta líquido no ouvido médio. Os dois estão descritos na página de exames diagnósticos.

A imagem não é rotina: entra quando há assimetria entre os ouvidos, perda unilateral, sinal neurológico focal ou suspeita de lesão retrococlear [1].

O que o aparelho auditivo faz — e o que não faz

O aparelho amplifica e processa o som para torná-lo audível e mais inteligível. A revisão Cochrane sobre perda leve a moderada em adultos reuniu cinco ensaios e 825 participantes: houve grande efeito benéfico sobre a qualidade de vida relacionada à audição e sobre a habilidade de escuta, e efeito pequeno sobre qualidade de vida geral, com evidência de qualidade moderada [5].

O que ele não faz: não devolve audição normal, não elimina a dificuldade em ambiente ruidoso e não corrige a distorção própria da lesão coclear.

Também não se deve prometer benefício cognitivo. O ensaio ACHIEVE, com 977 idosos de 70 a 84 anos, não encontrou redução do declínio cognitivo em três anos no conjunto da amostra; uma análise de sensibilidade pré-especificada sugeriu efeito diferente entre as duas populações estudadas, com possível benefício restrito a idosos de maior risco [6].

Adaptação: o que esperar

A adaptação é processo, não evento. Nas primeiras semanas, sons ausentes há anos voltam todos de uma vez — a própria voz, a geladeira, o passo no piso — e incomodam antes de acomodar. Ajustes de programação nesse período são parte do processo, não sinal de falha.

Quando o implante coclear entra

O implante coclear é considerado quando a perda é grave a profunda e o aparelho auditivo não oferece mais benefício suficiente para a comunicação. Ele não amplifica o som: estimula eletricamente o nervo auditivo, contornando as células ciliadas lesadas.

Uma revisão guarda-chuva de 42 revisões registra associação do implante em adultos com melhora de percepção de fala, de qualidade de vida e de cognição, e estima que menos de 10% dos adultos que poderiam se beneficiar em países desenvolvidos chegam ao procedimento, em parte por receio da cirurgia e desinformação [7].

Ajuste de expectativa: o benefício cognitivo é o ponto mais frágil dessa literatura — uma revisão sistemática de cognição após implante em idosos encontrou seis estudos, com 166 pacientes, e concluiu que não fornecem evidência conclusiva [8]. O que o implante propõe é acesso ao som e à fala; o resultado individual varia com tempo de privação auditiva, causa da perda e reabilitação.

Quando procurar atendimento

  • Perda auditiva súbita em um ouvido: avaliação em dias, não em semanas [1]
  • Perda de um lado só, mesmo lenta, ou zumbido apenas de um lado
  • Perda auditiva com tontura, desequilíbrio ou fraqueza no rosto
  • Dificuldade para entender conversa em ambiente com ruído
  • Secreção no ouvido, dor persistente ou história de perfuração de tímpano
  • Sensação de ouvido tampado que não resolve em semanas

Perguntas frequentes

Cera pode causar perda de audição? Pode, quando obstrui o conduto — e é perda condutiva, reversível com a remoção. A diretriz orienta não tratar rotineiramente cera assintomática em ouvido examinável e recomenda contra a "vela de ouvido" [4].

Aparelho auditivo em um ouvido só resolve? Depende do padrão da perda, e a definição vem da avaliação audiológica. A Cochrane avaliou o benefício da amplificação, não a escolha entre um e dois dispositivos [5].

Quem usa aparelho pode precisar de implante depois? Sim. O implante entra quando a perda progride a ponto de o aparelho não oferecer mais benefício suficiente para a comunicação [7].


Leia também: Otites: média, externa e serosa e Zumbido

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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Chandrasekhar SS, Tsai Do BS, Schwartz SR, Bontempo LJ, Faucett EA, Finestone SA, et al. Clinical Practice Guideline: Sudden Hearing Loss (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2019;161(1_suppl):S1-S45. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599819859885 (PMID: 31369359)

  2. Bhutta MF, Leach AJ, Brennan-Jones CG. Chronic suppurative otitis media. Lancet. 2024;403(10441):2339-48. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(24)00259-9 (PMID: 38621397)

  3. Bowl MR, Dawson SJ. Age-Related Hearing Loss. Cold Spring Harb Perspect Med. 2019;9(8):a033217. DOI: https://doi.org/10.1101/cshperspect.a033217 (PMID: 30291149)

  4. Schwartz SR, Magit AE, Rosenfeld RM, Ballachanda BB, Hackell JM, Krouse HJ, et al. Clinical Practice Guideline (Update): Earwax (Cerumen Impaction). Otolaryngol Head Neck Surg. 2017;156(1_suppl):S1-S29. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599816671491 (PMID: 28045591)

  5. Ferguson MA, Kitterick PT, Chong LY, Edmondson-Jones M, Barker F, Hoare DJ. Hearing aids for mild to moderate hearing loss in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2017;9(9):CD012023. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD012023.pub2 (PMID: 28944461)

  6. Lin FR, Pike JR, Albert MS, Arnold M, Burgard S, Chisolm T, et al. Hearing intervention versus health education control to reduce cognitive decline in older adults with hearing loss in the USA (ACHIEVE): a multicentre, randomised controlled trial. Lancet. 2023;402(10404):786-97. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(23)01406-X (PMID: 37478886)

  7. Tang D, Tran Y, Lo C, Lee JN, Turner J, McAlpine D, et al. The Benefits of Cochlear Implantation for Adults: A Systematic Umbrella Review. Ear Hear. 2024;45(4):801-7. DOI: https://doi.org/10.1097/AUD.0000000000001473 (PMID: 38233980)

  8. Claes AJ, Van de Heyning P, Gilles A, Van Rompaey V, Mertens G. Cognitive outcomes after cochlear implantation in older adults: a systematic review. Cochlear Implants Int. 2018;19(5):239-54. DOI: https://doi.org/10.1080/14670100.2018.1484328 (PMID: 29909732)


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