Polipose nasal é a forma da rinossinusite crônica em que a mucosa inflamada dos seios da face forma pólipos — massas moles e benignas, que obstruem o nariz e reduzem o olfato. É doença crônica: a cirurgia endoscópica controla, não cura, e o tratamento clínico continua depois dela.

O que é polipose nasal

Os pólipos nascem da mucosa dos seios da face e crescem em direção à fossa nasal. Não são tumores. Os sintomas típicos são obstrução nasal progressiva dos dois lados, redução ou perda do olfato, secreção espessa e pressão facial.

A classificação completa da rinossinusite crônica no consenso europeu EPOS 2020 está detalhada em sinusite aguda e crônica [1]. A polipose bilateral difusa é, na maior parte dos casos, expressão da inflamação chamada tipo 2 [2].

Pólipo em uma só narina é situação diferente: exige exame e imagem para esclarecer a natureza da lesão.

A relação com asma e com a intolerância a anti-inflamatório

Polipose, asma e intolerância a anti-inflamatórios não hormonais caminham juntas com frequência. Os documentos europeus sobre doença grave não controlada listam asma, doença respiratória exacerbada por anti-inflamatórios e alergias como comorbidades típicas do quadro [2,3].

Não é coincidência: é o mesmo processo inflamatório em dois andares da via aérea. Na prática, quem tem polipose precisa ter a asma avaliada, e quem já reagiu a anti-inflamatório com crise nasal ou respiratória precisa informar o médico — isso muda tratamento e prognóstico [2,3].

A cirurgia controla, não cura — e o tratamento clínico continua depois

A cirurgia endoscópica dos seios da face é feita por dentro do nariz, com endoscópio, sem corte externo. Remove os pólipos e amplia as vias naturais de drenagem e ventilação. Ao abrir os seios, também melhora o acesso do tratamento tópico a áreas antes inalcançáveis.

O que ela não faz: não desliga a inflamação que produziu o pólipo, não trata alergia nem asma e não garante recuperação do olfato.

Por isso o tratamento clínico continua depois. A diretriz americana recomenda lavagem nasal com solução salina, corticoide intranasal ou ambos no controle sintomático da rinossinusite crônica, e recomenda contra antifúngico [4]. Operar e abandonar o acompanhamento é a via mais direta para o retorno dos pólipos.

Recidiva, com franqueza

A recidiva faz parte da história natural da doença e precisa ser dita antes, não depois.

Revisão sistemática com 15 estudos e 2.515 pacientes operados identificou como preditores independentes a asma, a intolerância a anti-inflamatório, a eosinofilia periférica, o perfil inflamatório tipo 2 e a opacificação extensa dos seios na tomografia [5]. Outra metanálise apontou o nível de eosinófilos no tecido como o marcador mais útil para prever pólipos recorrentes [6].

Nenhum desses estudos prevê o caso individual: eles indicam quem precisa de seguimento mais próximo.

Olfato: o que esperar

A alteração do olfato é parte da doença, não da cirurgia. Pode melhorar depois do procedimento, permanecer parcial ou não retornar. É desfecho de meses, não da primeira semana de pós-operatório.

Metanálise que comparou cirurgia e tratamento biológico observou vantagem inicial da cirurgia nos primeiros meses e resultados semelhantes por volta de um ano, com melhora olfatória maior no grupo tratado com biológico nesse ponto [7].

Terapias biológicas

Existem hoje medicamentos biológicos para a polipose grave não controlada: anticorpos monoclonais que bloqueiam pontos específicos da inflamação tipo 2. As classes disponíveis atuam sobre a via da IL-4 e IL-13, sobre a IL-5 ou seu receptor, e sobre a IgE [2,3].

Não são para todo paciente com pólipo. Os documentos EPOS/EUFOREA definem critérios de seleção, exigem confirmação de inflamação tipo 2 e estabelecem avaliação formal de resposta, com decisão posterior de manter, trocar ou suspender [3].

Cirurgia e biológico não são excludentes: a escolha depende do quadro, das comorbidades e de conversa informada sobre riscos e benefícios [2,3].

Riscos e complicações da cirurgia

É um procedimento de baixo risco, mas não isento. Em série de 1.395 pacientes operados por rinossinusite crônica, a taxa de complicações maiores foi de 0,2% e a de menores, 2% [8]. A complicação maior mais frequente foi o hematoma orbitário; a menor, a sinéquia — aderência entre superfícies internas do nariz [8].

Outras possibilidades incluem sangramento, alteração do olfato e, raramente, fístula liquórica, pela proximidade da base do crânio. Esses números vêm de populações estudadas e não representam previsão individual.

Ajuste de expectativa

A cirurgia endoscópica melhora obstrução, secreção e qualidade de vida em boa parte dos pacientes. Ela não é cura da polipose.

Depois dela o paciente continua com uma doença crônica, que exige tratamento tópico continuado, acompanhamento endoscópico e, em parte dos casos, nova abordagem ao longo dos anos. Quem entra na cirurgia esperando alta definitiva sai frustrado mesmo com bom resultado técnico.

Quando procurar atendimento

  • Obstrução nasal dos dois lados que não cede com tratamento clínico
  • Perda ou redução do olfato que persiste por semanas
  • Diagnóstico de asma junto com sintoma nasal crônico
  • Crise nasal ou respiratória após uso de anti-inflamatório
  • Retorno dos sintomas depois de cirurgia prévia
  • Obstrução ou pólipo em uma só narina, ou secreção com sangue: foge do padrão da polipose bilateral e pede avaliação
  • Inchaço ao redor do olho, alteração da visão, dor de cabeça intensa com febre ou rigidez de nuca: procure pronto-socorro imediatamente

Perguntas frequentes

Pólipo nasal é câncer? Não. Os pólipos da polipose são lesões inflamatórias benignas. Lesão unilateral, porém, exige investigação específica: outras doenças podem se apresentar assim.

Se a cirurgia não cura, vale a pena operar? Vale quando o tratamento clínico não controla a doença. O objetivo é controle e qualidade de vida, com tratamento continuado depois.

Os pólipos voltam sempre? Não em todos os pacientes, mas a recidiva é frequente o suficiente para ser discutida antes da cirurgia. Asma, intolerância a anti-inflamatório e eosinofilia elevada estão entre os fatores associados a maior risco [5,6].

O olfato volta depois da cirurgia? Pode melhorar, melhorar parcialmente ou não voltar. É desfecho de meses, não de dias, e depende de quanto a inflamação de base é controlada.


Leia também: Sinusite aguda e crônica e Rinite alérgica

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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Fokkens WJ, Lund VJ, Hopkins C, Hellings PW, Kern R, Reitsma S, et al. European Position Paper on Rhinosinusitis and Nasal Polyps 2020. Rhinology. 2020;58(Suppl S29):1-464. DOI: https://doi.org/10.4193/Rhin20.600 (PMID: 32077450)

  2. Bachert C, Han JK, Wagenmann M, Hosemann W, Lee SE, Backer V, et al. EUFOREA expert board meeting on uncontrolled severe chronic rhinosinusitis with nasal polyps (CRSwNP) and biologics: Definitions and management. J Allergy Clin Immunol. 2021;147(1):29-36. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jaci.2020.11.013 (PMID: 33227318)

  3. Fokkens WJ, Viskens AS, Backer V, Conti D, De Corso E, Gevaert P, et al. EPOS/EUFOREA update on indication and evaluation of Biologics in Chronic Rhinosinusitis with Nasal Polyps 2023. Rhinology. 2023;61(3):194-202. DOI: https://doi.org/10.4193/Rhin22.489 (PMID: 36999780)

  4. Rosenfeld RM, Piccirillo JF, Chandrasekhar SS, Brook I, Ashok Kumar K, Kramper M, et al. Clinical practice guideline (update): adult sinusitis. Otolaryngol Head Neck Surg. 2015;152(2 Suppl):S1-S39. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599815572097 (PMID: 25832968)

  5. Abuduruk SH, Sabb Gul BK, AlMasoudi SM, Alfattani EH, Mohammad MA, Alshehri HM, et al. Factors Contributing to the Recurrence of Chronic Rhinosinusitis With Nasal Polyps After Endoscopic Sinus Surgery: A Systematic Review. Cureus. 2024;16(8):e67910. DOI: https://doi.org/10.7759/cureus.67910 (PMID: 39328679)

  6. Kim DH, Han JS, Kim GJ, Basurrah MA, Hwang SH. Clinical predictors of polyps recurring in patients with chronic rhinosinusitis and nasal polyps: a systematic review and meta-analysis. Rhinology. 2023;61(6):482-97. DOI: https://doi.org/10.4193/Rhin23.136 (PMID: 37453133)

  7. Kim DH, Stybayeva G, Hwang SH. Comparative Effectiveness of Dupilumab Versus Sinus Surgery for Chronic Rhinosinusitis With Polyps: Systematic Review and a Meta-Analysis. Am J Rhinol Allergy. 2024;38(6):428-36. DOI: https://doi.org/10.1177/19458924241272978 (PMID: 39149992)

  8. Alharbi A, Alhussain F, Alyamani A, Aljohani M, Alsergani A, AbaAlkhail M, et al. Complications of endoscopic sinus surgery for chronic rhinosinusitis in a tertiary care teaching hospital in Saudi Arabia. Saudi Med J. 2023;44(6):601-6. DOI: https://doi.org/10.15537/smj.2023.44.6.20230911 (PMID: 37343994)


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