Sinusite — o termo técnico atual é rinossinusite — é a inflamação da mucosa do nariz e dos seios da face. A maior parte dos episódios agudos é viral, melhora sozinha e não precisa de antibiótico. O que separa o quadro banal do que exige avaliação é o tempo de evolução e o padrão dos sintomas.
Aguda ou crônica: a diferença está no tempo
A rinossinusite aguda dura menos de doze semanas e se resolve por completo. A crônica é definida por sintomas que persistem doze semanas ou mais: obstrução nasal, secreção anterior ou posterior, dor ou pressão facial e redução do olfato [1].
Essa fronteira não é detalhe burocrático. No quadro agudo a pergunta é se há infecção bacteriana; no crônico, é qual inflamação sustenta o processo. Existe ainda a forma aguda recorrente: episódios que se repetem ao longo do ano, com intervalos livres [1,2].
Por que a maioria das agudas não precisa de antibiótico
O quadro agudo começa quase sempre como infecção viral. A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia orienta distinguir rinossinusite bacteriana presumida do quadro viral, e coloca a conduta expectante, sem antibiótico, como opção na doença bacteriana não complicada [2].
A revisão Cochrane sobre antibióticos na rinossinusite aguda em adultos reuniu 15 ensaios e 3.057 participantes. Sem antibiótico, 46% estavam curados em uma semana e 64% em catorze dias [3].
O benefício do antibiótico existe, mas é pequeno: de 5 a 11 pessoas a mais por 100 se curam mais rápido, enquanto 13 a mais por 100 apresentam efeitos adversos [3]. Os autores concluem que não há lugar para antibiótico na rinossinusite aguda não complicada [3].
Esses números descrevem populações estudadas e não preveem o caso individual. A decisão é do médico que examina o paciente.
O que sugere infecção bacteriana
O consenso europeu EPOS 2020 aponta como sugestivos de origem bacteriana a piora depois de uma fase inicial de melhora — a dupla piora —, secreção purulenta de um lado, dor facial intensa e localizada, febre alta e elevação de marcadores inflamatórios [1].
A diretriz americana acrescenta um critério de tempo: reavaliar quem piora, ou não melhora, sete dias após o diagnóstico e a conduta inicial [2].
Sinusite unilateral persistente, com mau cheiro, pode ter origem dentária. Revisão de sinusite odontogênica complicada mostra que a maioria dos casos partiu de lesão periapical de molares superiores [6].
Rinossinusite crônica, com e sem pólipo
O EPOS 2020 classifica a rinossinusite crônica em primária e secundária, e as subdivide em localizada e difusa [1]. No consultório, a divisão mais usada com o paciente é entre crônica sem pólipo e crônica com pólipo nasal.
A diretriz americana recomenda confirmar a presença ou ausência de pólipos em todo paciente com rinossinusite crônica [2]: doença com pólipo tem outro comportamento, outro tratamento e outra taxa de recidiva.
Para alívio sintomático da doença crônica, a mesma diretriz recomenda lavagem nasal com solução salina, corticoide intranasal ou ambos, e recomenda contra antifúngico tópico ou sistêmico [2].
O quadro crônico pede investigar condições que mudam o manejo: asma, fibrose cística, imunossupressão e discinesia ciliar [2]. Rinite alérgica associada é frequente e precisa ser tratada em paralelo — veja rinite alérgica.
Quando a imagem entra — e quando não entra
A diretriz americana é direta: não solicitar imagem para quem preenche critérios de rinossinusite aguda, exceto quando se suspeita de complicação ou de outro diagnóstico [2].
Na doença crônica a lógica se inverte: a recomendação é documentar objetivamente a inflamação, por rinoscopia, endoscopia nasal ou tomografia [2]. A radiografia simples dos seios da face não responde à pergunta clínica e não faz parte das recomendações atuais.
Quando a cirurgia entra
A cirurgia não é o primeiro passo. Entra quando o tratamento clínico adequado, por tempo suficiente e com adesão real, não controla a doença crônica, ou quando há alteração anatômica ou complicação que exige abordagem.
O procedimento usual é a cirurgia endoscópica dos seios da face, por via nasal, sem corte externo. O objetivo é restabelecer ventilação e drenagem.
Havendo polipose, o raciocínio cirúrgico e as expectativas são específicos: veja polipose nasal e cirurgia endoscópica.
Sinais de complicação: procure emergência
As complicações orbitárias e intracranianas são raras, mas graves, e o intervalo entre reconhecê-las e tratá-las importa. Em série de dez anos em hospital terciário, foram incomuns em adultos, e a maioria decorreu de quadro agudo [4]. A órbita é o local mais atingido [5].
Procure pronto-socorro imediatamente se houver:
- Inchaço, vermelhidão ou dor ao redor do olho, ou pálpebra fechando
- Olho projetado para fora, visão dupla, dificuldade para mover o olho ou queda da visão
- Dor de cabeça intensa e diferente do habitual, com febre alta
- Rigidez de nuca, confusão, sonolência excessiva ou convulsão
- Inchaço na testa ou na face com dor importante
Não espere a próxima consulta ambulatorial para nenhum desses sinais.
Quando procurar atendimento
- Sintomas nasais que persistem além de dez dias sem sinal de melhora
- Melhora seguida de piora clara no meio do quadro
- Dor facial intensa e localizada, com febre
- Episódios agudos que se repetem várias vezes ao ano
- Obstrução, secreção ou dor facial que já duram três meses ou mais
- Perda de olfato que não retorna, ou secreção unilateral com mau cheiro ou sangue
- Sinusite em pessoa com asma, imunossupressão ou doença pulmonar crônica
Perguntas frequentes
Toda sinusite precisa de antibiótico? Não. A maior parte dos quadros agudos é viral e se resolve sozinha; o ganho médio do antibiótico na doença aguda não complicada é pequeno diante dos efeitos adversos [3].
Tomografia é necessária para diagnosticar sinusite? Na aguda, não — salvo suspeita de complicação ou de outro diagnóstico [2]. Na crônica, a imagem é uma das formas de documentar a inflamação [2].
Sinusite crônica tem cura? O objetivo do tratamento é controle sustentado. Parte dos pacientes precisa de cirurgia, e mesmo depois dela o tratamento clínico costuma continuar.
Dor de cabeça frequente é sinusite? Nem sempre. Cefaleia isolada, sem obstrução nasal e sem secreção, raramente é rinossinusite — a enxaqueca é causa frequente de dor facial confundida com sinusite.
Leia também: Rinite alérgica e Desvio de septo e septoplastia
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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
Fokkens WJ, Lund VJ, Hopkins C, Hellings PW, Kern R, Reitsma S, et al. European Position Paper on Rhinosinusitis and Nasal Polyps 2020. Rhinology. 2020;58(Suppl S29):1-464. DOI: https://doi.org/10.4193/Rhin20.600 (PMID: 32077450)
Rosenfeld RM, Piccirillo JF, Chandrasekhar SS, Brook I, Ashok Kumar K, Kramper M, et al. Clinical practice guideline (update): adult sinusitis. Otolaryngol Head Neck Surg. 2015;152(2 Suppl):S1-S39. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599815572097 (PMID: 25832968)
Lemiengre MB, van Driel ML, Merenstein D, Liira H, Mäkelä M, De Sutter AIM. Antibiotics for acute rhinosinusitis in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2018;9(9):CD006089. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD006089.pub5 (PMID: 30198548)
Fernandes JA, Andrade A, Valente P, Vaz R. Orbital Complications of Rhinosinusitis in Adults: A 10-Year Retrospective Cohort Study. Cureus. 2025;17(6):e86868. DOI: https://doi.org/10.7759/cureus.86868 (PMID: 40718275)
Sansa-Perna A, Gras-Cabrerizo JR, Montserrat-Gili JR, Rodríguez-Álvarez F, Massegur-Solench H, Casasayas-Plass M. Our experience in the management of orbital complications in acute rhinosinusitis. Acta Otorrinolaringol Esp (Engl Ed). 2020;71(5):296-302. DOI: https://doi.org/10.1016/j.otorri.2019.11.005 (PMID: 32389323)
Craig JR, Cheema AJ, Dunn RT, Vemuri S, Peterson EL. Extrasinus Complications From Odontogenic Sinusitis: A Systematic Review. Otolaryngol Head Neck Surg. 2022;166(4):623-32. DOI: https://doi.org/10.1177/01945998211026268 (PMID: 34253072)
Fokkens WJ, Lund VJ, Hopkins C, Hellings PW, Kern R, Reitsma S, et al. Executive summary of EPOS 2020 including integrated care pathways. Rhinology. 2020;58(2):82-111. DOI: https://doi.org/10.4193/Rhin20.601 (PMID: 32226949)
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