A maior parte das tonturas que chegam ao consultório vem do ouvido interno e é avaliada pelo otorrinolaringologista. Uma parcela menor, porém relevante, vem do sistema nervoso central — e a causa neurológica mais comum é a migrânea vestibular, também a mais subdiagnosticada. A separação entre as duas origens é feita por história e exame, não por imagem.

A divisão entre periférico e central, na prática

Antes de perguntar "é labirinto ou é cérebro", a avaliação organiza a queixa em três síndromes, definidas pelo tempo e pelo gatilho [1]:

  • Aguda — tontura contínua que começou há horas ou dias e persiste;
  • Episódica — crises que vão e voltam, espontâneas ou provocadas por movimento;
  • Crônica — tontura na maior parte dos dias, por meses.

Cada uma tem seu conjunto de causas periféricas e centrais [1]. É essa organização, e não a intensidade da tontura, que define a investigação.

VPPB, doença de Ménière e neurite vestibular são do otorrinolaringologista e estão em tontura e vertigem. Esta página trata do que é neurológico.

Migrânea vestibular

É a causa mais frequente de vertigem episódica espontânea e condição comum nos ambulatórios de cefaleia e de neuro-otologia [2,3]. Estimativas nos Estados Unidos apontam prevalência em torno de 2,7% da população adulta, com diagnóstico incorreto frequente [4].

O que atrapalha o reconhecimento é simples: a dor de cabeça costuma estar ausente durante as crises de tontura [3]. A pessoa pode passar anos com vertigem, sensibilidade a movimento e desconforto visual sem associar nada à enxaqueca — que muitas vezes começou antes e mudou de forma [2,3].

O diagnóstico depende de anamnese detalhada, que reconstrói o histórico de enxaqueca e os sintomas associados às crises [2]. Os testes vestibulares servem para excluir outros diagnósticos, não para confirmar este [3]. O tratamento segue as linhas do tratamento da enxaqueca [2]. Veja enxaqueca e cefaleias.

Tontura persistente perceptual-postural

É a causa mais comum de sintoma vestibular crônico [5]. Manifesta-se como tontura, instabilidade ou vertigem não rotatória na maior parte dos dias, por três meses ou mais, que piora em pé, com movimento e diante de estímulos visuais complexos — supermercado, tela, trânsito [6].

O ponto que costuma aliviar quem recebe esse diagnóstico: ela geralmente começa depois de outro evento — VPPB, neurite, uma crise de migrânea vestibular, uma doença clínica ou um período de estresse intenso [6]. O gatilho passa; o sistema de controle postural permanece em alerta. É classificada como transtorno vestibular funcional crônico, e a classificação é explícita: não é condição estrutural nem psiquiátrica [6].

A evidência sobre tratamentos ainda é limitada [7] — o que não significa ausência de conduta, e sim plano individual, construído em consulta.

Causas neurológicas que exigem investigação

Entram ainda na avaliação as tonturas ligadas a doenças do cerebelo e do tronco cerebral, a doenças desmielinizantes, a alterações do movimento e a medicamentos [1]. A investigação é dirigida pelo exame. Veja Parkinson e distúrbios do movimento e esclerose múltipla.

Quando procurar atendimento

A regra que organiza este bloco é curta: tontura de início súbito acompanhada de sinal neurológico é suspeita de AVC até prova em contrário.

Acione o SAMU (192) diante de tontura de início súbito com qualquer destes: fraqueza ou dormência de um lado do corpo, alteração da fala, desvio da boca, visão dupla, dificuldade para engolir, incoordenação de um braço ou perna, ou incapacidade de ficar em pé e andar sem apoio. Veja AVC.

A razão de a lista existir é numérica. No pronto-socorro, sinais neurológicos isolados têm alta especificidade e baixa sensibilidade para causa central: fraqueza de membro tem especificidade de 98,5% e sensibilidade de apenas 11,4% [8]. Ou seja: quando o sinal aparece, ele pesa muito — mas a ausência dele não descarta AVC. Por isso a incapacidade de ficar em pé sem apoio entra na lista mesmo sem outro achado [8].

Vá ao pronto-socorro também diante de tontura contínua que começou há horas ou dias e não melhora, sobretudo com dor de cabeça ou cervical de início súbito.

A avaliação de urgência é feita à beira do leito, por exame ocular e de marcha realizado por profissional treinado; a tomografia de crânio não é o exame indicado nessa situação [1,9]. Imagem normal não encerra a investigação.

Procure avaliação ambulatorial para tontura recorrente há semanas ou meses sem esses sinais, para tontura diária persistente e para a que começou com um medicamento novo.

Por que "labirintite" atrasa o diagnóstico dos dois lados

"Labirintite" virou nome genérico para qualquer tontura, e o problema é que ele encerra a conversa cedo demais. De um lado, quem tem migrânea vestibular ou tontura persistente recebe um rótulo otológico e passa anos sem tratamento adequado — a migrânea vestibular responde a tratamento de enxaqueca, não a medicação para labirinto [2,3]. Do outro, quem tem VPPB, que se resolve com uma manobra na própria consulta, segue medicado sem ser examinado. Esses diagnósticos são do otorrinolaringologista: veja tontura e vertigem.

O caminho prático é o oposto do rótulo: descrever ao médico quanto tempo dura cada episódio, o que dispara, o que vem junto e há quanto tempo começou. É essa descrição que separa as três síndromes [1].

Perguntas frequentes

Tenho enxaqueca e tenho tontura. É a mesma coisa? Pode ser: a migrânea vestibular é isso, e a dor de cabeça costuma não estar presente durante a crise [3]. É pergunta para a consulta.

Preciso de ressonância para investigar tontura? Nem sempre. Na tontura aguda, a avaliação de escolha é o exame à beira do leito por profissional treinado, e a tomografia não é indicada [8,9]. Na recorrente ou crônica, a imagem entra conforme o exame neurológico.

Minha tontura já dura meses e todos os exames deram normais. E agora? Exames normais com tontura persistente há mais de três meses, que piora em pé e diante de estímulos visuais, é quadro descrito e nomeado [6]. Normal não significa "não é nada".

Devo procurar neurologista ou otorrino? Depende do padrão. Crises curtas ao virar na cama, perda auditiva ou zumbido apontam para o otorrinolaringologista — veja zumbido. Enxaqueca, sinais neurológicos ou tontura diária persistente apontam para a neurologia. Na dúvida, qualquer das duas portas encaminha.


Agende uma avaliação.

Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Tarnutzer AA, Kerkeni H, Diener S, Kalla R, Candreia C, Piantanida R, et al. Diagnosis and treatment of vertigo and dizziness: Interdisciplinary guidance paper for clinical practice. HNO. 2025;73(Suppl 3):357-369. DOI: https://doi.org/10.1007/s00106-025-01599-z (PMID: 40526155)
  2. Villar-Martinez MD, Goadsby PJ. Vestibular migraine: an update. Curr Opin Neurol. 2024;37(3):252-263. DOI: https://doi.org/10.1097/WCO.0000000000001257 (PMID: 38619053)
  3. Lempert T, von Brevern M. Vestibular Migraine. Neurol Clin. 2019;37(4):695-706. DOI: https://doi.org/10.1016/j.ncl.2019.06.003 (PMID: 31563227)
  4. Benjamin T, Gillard D, Abouzari M, Djalilian HR, Sharon JD. Vestibular and auditory manifestations of migraine. Curr Opin Neurol. 2022;35(1):84-89. DOI: https://doi.org/10.1097/WCO.0000000000001024 (PMID: 34864754)
  5. Staab JP. Persistent Postural-Perceptual Dizziness: Review and Update on Key Mechanisms of the Most Common Functional Neuro-otologic Disorder. Neurol Clin. 2023;41(4):647-664. DOI: https://doi.org/10.1016/j.ncl.2023.04.003 (PMID: 37775196)
  6. Staab JP, Eckhardt-Henn A, Horii A, Jacob R, Strupp M, Brandt T, et al. Diagnostic criteria for persistent postural-perceptual dizziness (PPPD): Consensus document of the committee for the Classification of Vestibular Disorders of the Bárány Society. J Vestib Res. 2017;27(4):191-208. DOI: https://doi.org/10.3233/VES-170622 (PMID: 29036855)
  7. Webster KE, Kamo T, Smith L, Harrington-Benton NA, Judd O, Kaski D, et al. Non-pharmacological interventions for persistent postural-perceptual dizziness (PPPD). Cochrane Database Syst Rev. 2023;3(3):CD015333. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD015333.pub2 (PMID: 36912784)
  8. Shah VP, Oliveira J E Silva L, Farah W, Seisa MO, Balla AK, Christensen A, et al. Diagnostic accuracy of the physical examination in emergency department patients with acute vertigo or dizziness: A systematic review and meta-analysis for GRACE-3. Acad Emerg Med. 2023;30(5):552-578. DOI: https://doi.org/10.1111/acem.14630 (PMID: 36453134)
  9. Edlow JA, Carpenter C, Akhter M, Khoujah D, Marcolini E, Meurer WJ, et al. Guidelines for reasonable and appropriate care in the emergency department 3 (GRACE-3): Acute dizziness and vertigo in the emergency department. Acad Emerg Med. 2023;30(5):442-486. DOI: https://doi.org/10.1111/acem.14728 (PMID: 37166022)

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica.

Precisa de uma avaliação?

A recepção informa agenda, convênios e atendimento particular.

Agende uma consulta